Investigação sobre abusos contra migrantes em centros italianos na Albânia vence prêmio europeu de jornalismo

Reportagem de 18 meses revelou denúncias de violações de direitos fundamentais, falta de transparência e gastos públicos no acordo migratório entre Itália e Albânia.

23 de outubro de 2026

Uma investigação jornalística sobre as condições de detenção de migrantes em instalações administradas pela Itália na Albânia venceu o Prêmio Daphne Caruana Galizia de Jornalismo 2026, concedido pelo Parlamento Europeu. O trabalho foi produzido pelo jornalista italiano Giacomo Zandonini e pela jornalista neerlandesa Maite Vermeulen e publicado pela plataforma independente De Correspondent, dos Países Baixos. O anúncio ocorreu em 21 de outubro, durante uma cerimônia em Estrasburgo, na França.

Intitulada “Cuffed, caged, cast away: this is Europe’s ‘innovative solution’ for unwanted migrants”, em tradução livre, “Algemados, enjaulados e abandonados: a ‘solução inovadora’ da Europa para migrantes indesejados”, a reportagem examinou o acordo migratório entre os governos italiano e albanês e levantou questionamentos sobre a legalidade das medidas, o tratamento dispensado às pessoas detidas e a transparência dos gastos públicos.

Investigação analisou centros de detenção fora da União Europeia

O acordo entre Itália e Albânia permitiu a construção de duas instalações em território albanês, nas localidades de Shëngjin e Gjadër. Inaugurados em 2024, os centros foram concebidos inicialmente para receber solicitantes de asilo resgatados no mar enquanto as autoridades italianas analisavam seus pedidos.

Após sucessivos obstáculos judiciais, o governo da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, passou a utilizar as estruturas, a partir de março de 2025, para manter migrantes em situação irregular detidos antes de uma eventual deportação aos países de origem.

A política gerou controvérsias jurídicas e políticas por transferir procedimentos migratórios para fora do território da União Europeia. A investigação premiada examinou como o modelo funciona e quais são suas consequências para pessoas submetidas à detenção e aos procedimentos de retorno.

Reportagem aponta falta de transparência e questiona custos

Ao longo de 18 meses, os jornalistas reuniram documentos, entrevistaram migrantes, profissionais que atuam nos centros, advogados, representantes políticos e moradores locais. Também apresentaram pedidos de acesso à informação a diferentes instituições europeias e governos nacionais.

Segundo os resultados relatados pelos autores, houve dificuldades para obter informações oficiais sobre o funcionamento das instalações. Os jornalistas afirmaram que não conseguiram acesso aos centros e que diversos pedidos de informação não foram respondidos. A investigação também questionou a divulgação de contratos e outros dados relacionados ao acordo.

A reportagem estimou que aproximadamente € 259 milhões foram gastos nas instalações durante os dois primeiros anos de operação, período em que, segundo o levantamento, 256 pessoas foram detidas. Os números foram apresentados pelos autores da investigação e serviram de base para questionamentos sobre o custo e a efetividade do programa.

O trabalho também documentou possíveis violações de direitos fundamentais e da legislação europeia relacionadas ao tratamento dos migrantes e à transferência dessas pessoas para a Albânia. As conclusões alimentam o debate sobre as garantias legais que devem ser asseguradas a quem solicita proteção internacional ou está sujeito a procedimentos de deportação.

Prêmio reconhece jornalismo investigativo

O Prêmio Daphne Caruana Galizia é concedido pelo Parlamento Europeu a trabalhos jornalísticos que defendem valores fundamentais da União Europeia, como liberdade de imprensa, democracia e Estado de Direito. A escolha é feita por um júri independente composto por profissionais do jornalismo dos países do bloco.

Na edição de 2026, foram recebidas 344 candidaturas de jornalistas dos 27 países da União Europeia, e dez trabalhos chegaram à lista de finalistas antes da escolha do vencedor. A premiação inclui € 20 mil.

O prêmio homenageia Daphne Caruana Galizia, jornalista investigativa maltesa assassinada em outubro de 2017, em um atentado com carro-bomba, enquanto investigava casos de corrupção. Seu nome tornou-se símbolo da defesa da liberdade de imprensa e da proteção de profissionais que investigam abusos de poder.

Debate migratório ganha dimensão europeia

A repercussão da investigação ultrapassa o caso italiano. Outros países europeus discutem mecanismos para transferir migrantes e procedimentos de retorno para centros instalados fora da União Europeia, modelo frequentemente chamado de return hubs, ou centros de retorno.

Defensores dessas políticas argumentam que acordos com países terceiros podem facilitar a gestão migratória e os procedimentos de deportação. Organizações de direitos humanos e especialistas jurídicos, por outro lado, alertam para riscos relacionados ao acesso ao asilo, às condições de detenção, ao devido processo legal e à responsabilidade dos governos envolvidos.

Ao premiar a investigação, o Parlamento Europeu dá visibilidade a um trabalho que questiona a transparência e as consequências humanas de uma política migratória controversa. O caso reforça a importância do jornalismo investigativo para fiscalizar decisões governamentais, examinar o uso de recursos públicos e levar ao debate questões que afetam pessoas em situação de vulnerabilidade.

Fontes: Euronews

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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