Cientistas alertam que a perda da floresta já interfere no regime de chuvas da América do Sul; uma única árvore adulta amazônica pode devolver de 200 a 300 litros de água à atmosfera diariamente
Muito acima das copas das árvores, uma imensa quantidade de água atravessa diariamente a América do Sul sem correr por nenhum leito de rio. É vapor produzido e reciclado pela própria floresta amazônica, transportado pelos ventos e responsável por levar umidade a regiões localizadas a milhares de quilômetros da Amazônia.
São os chamados “rios voadores”, parte de um sistema que pesquisadores classificam como uma das principais infraestruturas hídricas do continente. O problema é que essa engrenagem natural está sob crescente pressão.
Pesquisadoras que participaram da edição 2026 do TEDxAmazônia, realizada no Equador no fim de agosto, alertam que desmatamento, queimadas e outras formas de degradação já afetam o funcionamento dessa gigantesca “máquina de chuva”. A continuidade da devastação pode reduzir a capacidade da floresta de reciclar e transportar umidade, com consequências que ultrapassam as fronteiras da região amazônica.
Segundo a pesquisadora Julia Valentim Tavares, uma árvore adulta da Amazônia pode liberar para a atmosfera entre 200 e 300 litros de água por dia.
Multiplicado pela dimensão da floresta, o processo ajuda a explicar sua influência sobre o clima continental.
A estimativa apresentada pelas pesquisadoras considera cerca de 400 bilhões de árvores participando dessa circulação de água. É essa enorme massa de vapor, invisível a olho nu, que dá origem à expressão “rios voadores”.
Como funciona a máquina de chuva
O funcionamento começa no Oceano Atlântico. Massas de ar carregadas de umidade chegam à Amazônia e encontram a floresta, onde parte dessa água precipita na forma de chuva.
As árvores absorvem água do solo por meio das raízes. Depois, uma parcela retorna à atmosfera principalmente pela transpiração das folhas. O processo, associado à evaporação da água presente no ambiente, alimenta novamente as massas de ar.
Os ventos transportam essa umidade para outras partes da bacia amazônica e do continente.
A floresta, portanto, não é apenas uma receptora das chuvas. Ela participa ativamente da reciclagem da água que mantém o próprio sistema funcionando.
É essa capacidade que faz da Amazônia uma infraestrutura climática de escala continental.
Marielos Peña Claros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, organização que reúne mais de 350 pesquisadores dedicados ao estudo do bioma, destaca que a floresta sustenta ciclos de água, nutrientes e carbono em escalas local, regional e global.
Essa conexão significa que alterações provocadas em uma parte da floresta podem produzir efeitos muito além do local onde ocorreu o desmatamento.
Quando a floresta desaparece, a chuva muda
O alerta dos pesquisadores está justamente na ruptura progressiva desse ciclo.
Quando uma área é desmatada, desaparecem também milhares de árvores responsáveis por retirar água do solo e devolvê-la à atmosfera. Em grandes extensões, a perda de cobertura vegetal pode modificar a circulação de umidade e contribuir para mudanças no regime de chuvas.
Segundo Peña Claros, já existem evidências mensuráveis de que o desmatamento na Amazônia brasileira está associado à redução das precipitações em regiões do Brasil e da Bolívia.
Nas áreas degradadas, também são observadas temperaturas mais elevadas e estações secas mais intensas e prolongadas.
O problema cria um ciclo de retroalimentação: menos floresta pode significar menor reciclagem de umidade; períodos secos mais prolongados deixam as árvores sob maior estresse hídrico; a vegetação ressecada torna-se mais vulnerável ao fogo; e novos incêndios provocam mais degradação.
Árvores também podem morrer de sede
Julia Tavares estuda justamente o que acontece dentro das árvores quando a disponibilidade de água diminui.
Na borda sul da Amazônia, região marcada pelo avanço histórico do desmatamento, a pesquisadora investiga os limites hidráulicos das árvores durante períodos de seca.
A água precisa percorrer um longo caminho entre o solo, as raízes, o tronco e as folhas. Durante uma estiagem intensa, a redução da água disponível no solo aumenta a tensão nesse sistema interno.
Quando essa estrutura hidráulica sofre sucessivas falhas, a árvore perde capacidade de transportar água e pode morrer.
O fenômeno ajuda a compreender por que uma floresta submetida simultaneamente a desmatamento, aumento da temperatura, secas prolongadas e incêndios pode perder gradualmente sua capacidade de recuperação.
Da Amazônia para o restante do continente
Os efeitos não ficam restritos aos estados amazônicos.
A circulação atmosférica transporta parte da umidade produzida na floresta em direção a outras regiões da América do Sul. Por isso, mudanças profundas nesse sistema podem repercutir na disponibilidade de água para cidades, agricultura, geração de energia e ecossistemas distantes da floresta.
A edição de 2026 do TEDxAmazônia adotou justamente o conceito “Onde tudo se conecta”. Realizado entre 27 e 30 de agosto, em Baños e Puyo, no Equador, o encontro reuniu pesquisadores, lideranças indígenas e representantes de diferentes países da bacia amazônica.
Os rios voadores foram apresentados como uma das expressões mais claras dessa interdependência: o desmatamento ocorrido em determinado território pode interferir em regimes de chuva muito além de suas fronteiras.
Seca e fogo aumentam a preocupação
O alerta ganha peso diante da possibilidade de um novo período climático extremo na Amazônia.
Secas severas submetem as árvores a estresse hídrico e deixam a vegetação mais vulnerável aos incêndios. Quando grandes áreas queimam, além da perda de cobertura vegetal, toneladas de carbono armazenado são liberadas para a atmosfera.
Em condições normais, a floresta retira grandes quantidades de dióxido de carbono da atmosfera durante o crescimento da vegetação. Sob secas extremas, mortalidade elevada de árvores e incêndios, esse equilíbrio pode ser comprometido.
O risco é transformar um sistema que ajuda a regular o clima em uma fonte adicional de gases de efeito estufa, reforçando o próprio aquecimento que aumenta a vulnerabilidade da floresta.
Para as pesquisadoras, impedir esse processo exige reduzir drasticamente as emissões globais de gases de efeito estufa, conter o desmatamento e recuperar áreas degradadas.
Também significa preservar a conectividade da floresta. Uma Amazônia fragmentada perde não apenas biodiversidade, mas parte das conexões ecológicas responsáveis pela circulação de água, nutrientes e carbono.
A dimensão dos rios voadores ajuda a mostrar por que o destino da floresta não é uma questão exclusivamente amazônica. Cada árvore retirada representa uma pequena interrupção em uma engrenagem muito maior. Quando a perda ocorre em escala suficiente, o que está em risco não é apenas a floresta que desaparece no chão, mas também parte da água que deixa de circular pelo céu.

