Novo chefe da ONU no Brasil prioriza Amazônia e ação climática

O Escritório das Nações Unidas no Brasil tem um novo representante ou coordenador residente desde junho: o economista chileno Igor Garafulic. Com quase 30 anos de experiência na ONU, ele já serviu em países como Azerbaijão, Honduras, Paraguai e Peru.

Em entrevista exclusiva à ONU News, o líder do Sistema da ONU no Brasil destacou a atuação estratégica da organização no país, priorizando o desenvolvimento sustentável e a proteção da região amazônica.

Amazônia, diplomacia e clima

Falando à ONU News, Igor Garafulic sublinhou o trabalho focado na inovação feito por mais de 20 agências da organização no Brasil, focalizado em preservação da Amazônia, diplomacia e gestão de crises climáticas.

A representante do Unicef , Ana de Mendoza, o representante da OPAS/OMS, Carlos Roberto Garzón, e o coordenador residente da ONU , Igor Garafulic, observam trabalhadores descarregando vacinas da Pfizer contra a COVID-19 de um caminhão no CENARES, no Peru, em 10 de março de 2021.
Unicef/Jose Vilca Organização defende logística ágil com agências como a Organização Pan-Americana da Saúde, Opas

“A Amazônia não é só importante para o Brasil, é importante para o mundo, porcentagens altas de água ficam lá, e o trabalho que existe aqui é muito inovador. Se trabalha com uma organização, um consórcio chamado Amazônia Legal, que envolve nove estados que têm relação com a Amazônia, e é uma parceria em que o governo está presente, em que obviamente os governos estaduais estão presentes, e a comunidade internacional.”

Garafulic ressaltou a capacidade de resposta ágil do país a crises ambientais emergentes e enfatizou o papel da cooperação internacional que, em vez de substituir, atua de forma complementar para fortalecer as estruturas, os serviços e a infraestrutura já existentes no Brasil.

Ao todo, a ONU conta com cerca de 3,5 mil colaboradores em território brasileiro.

Consórcio Amazônia Legal e o Fundo Brasil-ONU

Uma das grandes frentes de atuação da ONU é a colaboração direta com o Consórcio Interestadual Amazônia Legal, que reúne os nove estados da Amazônia Brasileira.

A iniciativa alia forças entre o Governo Federal, os governos estaduais e a comunidade internacional com destaque para parcerias e doações de países como o Canadá.

Igor Garafulic contou que a sinergia é estimulada por mecanismos como o Fundo Brasil-ONU, focado no financiamento e desenvolvimento de projetos sustentáveis, na proteção socioambiental e no fortalecimento das comunidades locais da floresta.

Trabalho e confiança

Para o novo líder da ONU no Brasil, o diferencial do trabalho das Nações Unidas é a presença contínua em territórios em caso de crises naturais ou humanitárias. A atuação direta das agências da ONU junto aos governos estaduais garante que, quando um desastre ocorre, já exista uma rede de confiança e cooperação previamente estabelecida.

Com experiência em política local, de seus tempos como governador da área metropolitana de Santiago do Chile, Igor Garafulic realça a determinação de aliar forças com o Brasil, que tem uma estrutura consolidada.

Mulheres indígenas e jornalistas colhem castanhas-do-pará na Amazônia brasileira, cercadas por uma grande pilha de castanhas e cestos trançados.
© ONU Brasil/Silvia Rucks Atuação das Nações Unidas foca na complementaridade e agilidade estratégica

Segundo ele, a ONU tem o papel de impulsionar a agilidade, a expertise técnica e a articulação internacional onde mais é preciso.

“No nosso caso, tivemos umas enchentes há dois anos, em 2024, e, mais uma vez, o país tem a sua própria institucionalidade para enfrentar as emergências. Mas chega um momento em que a cooperação internacional pode dar outras coisas. Em primeiro lugar, a gente trabalha em prevenção, e trabalhamos nisso aqui, mas também trabalhamos em dar ajuda humanitária no momento, mas se eu tivesse que dar um exemplo, isso vem na fase seguinte, quando a gente tem que preparar-se para recuperação e reconstrução, e nessa área, os nossos colegas da ONU conseguiram trabalhar nisso.”

Resposta rápida a emergências

Além da preservação florestal, a ação climática da ONU no Brasil e na América Latina passa pelo suporte ágil em momentos de desastres e crises extremas.

Garafulic destacou que o Brasil possui uma infraestrutura institucional própria muito sólida e independente para enfrentar emergências. Por isso, a atuação das Nações Unidas foca na complementaridade e agilidade estratégica.

A organização defende logística ágil com agências como a Organização Pan-Americana da Saúde, Opas, mobilizando aquisições e insumos de emergência em questão de horas através de contratos prévios de suprimentos.

Um membro da equipe do ACNUR entrevista pessoas deslocadas em um abrigo temporário em Porto Alegre, Brasil, após as inundações.
© ACNUR/ Vanessa Beltrame Refugiados sendo alojados em abrigos temporários após as devastadoras enchentes no estado do Rio Grande do Sul, no sul do Brasil.

Logo a seguir às crises, como nas históricas enchentes no Rio Grande do Sul, a ONU atua na reconstrução com resiliência.

Cooperação transfronteiriça

“A primeira coisa é que a gente tem que ter claridade que o país tem uma estrutura estadual, com governos estaduais muito importantes, independentes, e uma surpresa positiva que eu tive aqui é que muitas das nossas agências têm um trabalho direto com os governos estaduais. Então quando vem uma emergência desse nível, não é que a gente se conheça nesse dia, já tem um trabalho prévio que permite trabalhar com mais confiança.”

Um exemplo é o estudo de “perdas e danos” conduzido pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, para ajudar a reconstruir melhor e de forma mais preparada para eventos climáticos.

Por fim, o escritório do Brasil apoia as representações na América do Sul na cooperação transfronteiriça que integrada permite uma resposta coordenada rápida entre países vizinhos em episódios de desastres naturais ou eventos extremos.

Igor Garafulic substitui a engenheira uruguaia Silvia Rucks, que liderou o trabalho da ONU no Brasil até o início deste ano e foi o ponto focal para a realização da COP30, a Conferência da ONU sobre Mudança Climática, em Belém do Pará.

*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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