Desmatamento intensifica secas e faz Brasil criar efeitos semelhantes aos do El Niño, aponta especialista

O avanço do desmatamento na Amazônia está alterando o regime de chuvas no Brasil e produzindo efeitos que se assemelham aos provocados pelo El Niño, como estiagens prolongadas, aumento das temperaturas e redução da disponibilidade de água. A avaliação é do professor da Universidade de São Paulo (USP) Pedro Côrtes, especialista em clima e meio ambiente.

Segundo o pesquisador, embora o El Niño seja um fenômeno natural causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o desmatamento amazônico desencadeia impactos semelhantes ao comprometer o ciclo hidrológico da floresta. A perda da cobertura vegetal reduz a evapotranspiração das árvores, diminuindo a umidade que abastece os chamados “rios voadores”, responsáveis por transportar vapor d’água para o Centro-Oeste, Sudeste e parte do Sul do país.

Com menos floresta, há uma redução na formação de chuvas e um aumento da frequência de períodos secos e ondas de calor. O processo afeta principalmente a Amazônia, mas seus reflexos alcançam importantes regiões produtoras de alimentos e grandes centros urbanos, elevando os riscos para o abastecimento de água, a geração de energia hidrelétrica e a produção agrícola.

O especialista destaca que o chamado “arco do desmatamento”, localizado nas porções sul e leste da Amazônia, vem comprometendo o funcionamento desse sistema natural. Nessa faixa, a retirada da vegetação impede que grandes árvores retirem água das camadas profundas do solo e a devolvam à atmosfera, reduzindo significativamente a umidade transportada pelos ventos.

Estudos científicos já alertam para a proximidade de um ponto crítico. Pesquisadores Thomas Lovejoy e Carlos Nobre estimam que a perda entre 20% e 25% da cobertura florestal pode levar a Amazônia a um processo irreversível de degradação, comprometendo sua capacidade de manter o próprio ciclo de chuvas e de se regenerar naturalmente. Em algumas áreas do arco do desmatamento, esse percentual já foi ultrapassado.

Embora os impactos sejam mais intensos sobre as regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste, os efeitos no Sul do Brasil apresentam características diferentes. Além da umidade proveniente da Amazônia, a região também depende de frentes frias e sistemas atmosféricos extratropicais. Por isso, o comportamento das chuvas no Sul continua sendo fortemente influenciado pelo El Niño e pela La Niña, que podem intensificar episódios de excesso ou escassez de precipitação.

A análise reforça que a preservação da Amazônia não é apenas uma questão ambiental, mas também estratégica para a segurança hídrica, energética e alimentar do país. A continuidade do desmatamento tende a ampliar os impactos climáticos internos, independentemente da ocorrência de fenômenos naturais no Oceano Pacífico.

Post Author: Beatriz Costa

Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Pós-graduação em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Editora-chefe do Portal Agro Floresta Amazônia / Revista Agro Floresta Brasil

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