REPORTAGEM ESPECIAL: GUERRAS PELO MUNDO
Uma análise sobre como instabilidade política, extremismo e disputas por recursos mantêm o continente preso a ciclos persistentes de violência
Por Beatriz Costa, Editora-chefe.
Pense na África como um tabuleiro onde, há anos, se movem peças de poder, recursos e repetidas promessas de paz, mas onde, também há anos, caem bombas de guerra, fome, deslocamentos e silêncio internacional. Em 2025, o continente concentra dezenas de conflitos ativos, e abriga boa parte das crises humanitárias mais dramáticas do planeta. A combinação de rivalidades internas, interesses externos, estados frágeis e recursos valiosos converteu vastas regiões numa simbiose de violência, sofrimento e abandono.
O que une todos esses conflitos, embora sejam distintos em suas causas e protagonistas, é o padrão de devastação social, milhões de pessoas forçadas a abandonar suas casas, perda de infraestrutura essencial, colapso de serviços básicos, fome, trauma e um futuro incerto. Segundo estimativas recentes, mais de 40 milhões de africanos já foram deslocados à força devido a guerras, insurgências e violência armada, um número que cresce ano após ano.
E talvez o mais cruel, muitos desses conflitos, mesmo quando violentos e prolongados, são pouco vistos, pouco cobertos pela mídia internacional, pouco debatidos nas instâncias globais, e, por isso, pouco lembrados. Por isso, este especial se propõe a dar voz a essas tragédias negligenciadas. Percorreremos juntos, em reportagens detalhadas, os focos de guerra que consomem vidas hoje na África, para que suas vítimas, e sua urgência, não sejam mais ignoradas.
Sudão: A guerra civil esquecida
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Desde abril de 2023, quando a disputa entre o exército tradicional do Sudanese Armed Forces (SAF) e a milícia paramilitar Rapid Support Forces (RSF) explodiu em combates abertos, o Sudão se transformou num dos cenários mais dramáticos de deslocamento e sofrimento humano do mundo. O país, já marcado por tensões políticas, crises econômicas e conflitos antigos, viu-se subitamente imerso em uma guerra que não mostrava sinais de cessar-fogo, e cujas consequências se estenderam a cada canto da nação. A rivalidade entre os líderes militares, antagonismos de poder e influência, antigas feridas não cicatrizadas (especialmente em regiões como Darfur) e disputas por controle territorial e econômico convergiram em violência generalizada.
A tragédia se traduziu em números assustadores: segundo estimativas de 2025, mais de 12,4 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, entre deslocados internos e refugiados que cruzaram fronteiras. Dentro do país, milhões vivem em abrigos improvisados, muitas vezes escolas ou estações de ônibus convertidas em campos de deslocados, sem acesso regular a água potável, saneamento ou serviços básicos. A guerra provocou um colapso de infraestrutura: hospitais foram destruídos ou deixaram de funcionar, estradas estão danificadas, cadeias de fornecimento de alimentos e remédios foram interrompidas, transformando o conflito armado também em uma catástrofe humanitária.
As consequências para a população civil são profundas. Organizações internacionais relatam graves violações de direitos humanos: execuções arbitrárias, tortura, violência sexual (especialmente contra mulheres e meninas), saques e ataques indiscriminados a comunidades civis, e perseguições étnicas em áreas como Darfur. A fome se espalha: em diversas regiões, famílias vivem com insegurança alimentar aguda, e crianças sofrem com desnutrição, doenças e a interrupção da educação, milhares de escolas estão fechadas ou foram convertidas em abrigos.
O governo, fragilizado e disputado, parece incapaz de garantir a segurança básica ou proteger civis. A alternância de controle entre forças, os avanços e recuos militares, e a dispersão de poder tornaram difícil qualquer estratégia de estabilização. A crise econômica agrava ainda mais a situação: inflação alta, colapso do sistema de saúde e escassez de recursos. O resultado é que milhões vivem numa condição de vulnerabilidade extrema, sem casa, sem comida, sem proteção.
Este conflito mostra que a guerra no Sudão não é apenas uma disputa militar, é uma crise total de Estado, sociedade e dignidade humana. A escala da tragédia desmente qualquer narrativa de “guerra localizada”, ela afeta todo o país e ultrapassa fronteiras. A comunidade internacional já aponta o Sudão como a maior crise de deslocamento e emergência humanitária do mundo em 2025.
RDC e Ruanda (M23): O conflito por minerais e poder regional
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Desde o retorno do conflito no leste da República Democrática do Congo (RDC), o grupo rebelde M23, com apoio declarado ou denunciado de Ruanda, reacesa tensões antigas que remontam à turbulenta história da região dos Grandes Lagos africanos. A região carrega cicatrizes de guerras, massacres e disputas étnicas desde os anos 1990; a reemergência do M23, em 2021, em meio a um contexto de fragilidade do Estado congolês, sucessivas violações de acordos e persistente instabilidade institucional, reacendeu velhas mágoas e acendeu uma nova rodada de violência motivada por poder, controle territorial e, sobretudo, pelo controle de recursos minerais estratégicos. Especialistas apontam que a abundância de minerais como coltan, estanho, ouro e outros, essenciais para a indústria global de eletrônicos, transforma o leste da RDC em um palco de disputa por riqueza quase tão acirrada quanto a disputa por território.
A ofensiva mais recente do M23 convulsiona a região: em 2025, o grupo tomou importantes centros urbanos, entre eles Goma (capital da província de Kivu do Norte) e Bukavu (província de Kivu do Sul), em rápidas operações que marcaram “a pior escalada em mais de uma década”, segundo as Nações Unidas. Organizações internacionais relatam números alarmantes: desde janeiro de 2025, pelo menos 7 mil pessoas morreram em confrontos, segundo declaração oficial da primeira-ministra congolês. A violência gerou deslocamentos massivos: só na fase mais recente, foram contabilizados centenas de milhares de pessoas obrigadas a fugir, muitas cruzando fronteiras ou se abrigando em campos improvisados.
O impacto humanitário é profundo e multifacetado. Hospitais e centros de saúde foram atacados ou abandonados, o que deixou feridos sem atendimento e gerou surtos de doenças; estradas e rotas de ajuda foram interrompidas; aldeias e vilas foram destruídas, e a população civil (especialmente mulheres e crianças) sofreu violações de direitos humanos: assassinatos, saques, violência sexual e pilhagens foram denunciados por ONGs e pela comunidade internacional. As infraestruturas de sobrevivência, como escolas, abastecimento de água e rotas de comércio, foram colocadas em colapso, aprofundando a crise de pobreza, fome e deslocamento.
No âmbito geopolítico, o conflito revela um jogo de interesses grave e complexo. A acusação do governo congolês de que Ruanda fornece suporte militar e logístico ao M23, com tropas presenciais no leste da RDC, gera tensões internacionais, acusações de violação da soberania e acusações de que o conflito se transformou numa disputa por recursos, influência e controle de rotas geoestratégicas. Analistas afirmam que para Ruanda, garantir uma zona de influência na região e acesso aos minerais é estratégico, o que torna improvável uma desistência do apoio ao M23 a menos que haja pressão internacional concreta.
Atualmente, 2024–2025 mostram um cenário de impasse: embora o M23 tenha declarado cessar-fogo unilateral em fevereiro de 2025, a ofensiva não cessou de fato, houve retomadas de combate, novas conquistas territoriais e contínuas violações, segundo relatos de ONGs e organismos internacionais. A crise humanitária continua crescendo, com milhares de deslocados, destruição de infraestrutura, insegurança alimentar e colapso dos serviços básicos. Sem resolução política real, o risco de que o conflito se consolide como uma guerra de longa duração, com zonas “sem Estado” controladas por milícias e exploração de recursos, é alto.
Se a comunidade internacional não intervir com pressão diplomática, monitoramento independente e cessar-fogo efetivo, além acesso humanitário garantido, corre-se o risco de perpetuar um ciclo de violência, pilhagem e sofrimento em uma região rica, mas trágica, do continente africano. A tragédia da RDC e de seu povo é mais do que um conflito local, é uma ferida aberta na geopolítica global, na economia dos recursos minerais e na consciência humanitária do mundo.
Etiópia (Amhara/Fano): A guerra após a guerra

Desde meados de 2023, a região de Amhara, no norte da Etiópia, tornou-se o palco de um novo e sangrento conflito, desta vez entre o exército federal e as milícias regionais agrupadas sob o nome “Fano”. A origem recente dessa guerra está diretamente ligada aos desfechos da guerra contra o Governo da região de Tigré (2020-2022), quando Fano havia lutado ao lado das forças federais. Após o acordo oficial de paz em novembro de 2022, muitos integrantes e apoiadores de Fano se sentiram traídos, a redefinição da estrutura de segurança regional, com desmobilização parcial das forças estaduais, suscitou medos de marginalização e perda de poder político e territorial. A insatisfação se traduziu em protestos, recusas à integração e, por fim, em resistência armada contra o governo central.
Os combates recomeçaram em julho de 2023, quando milicianos de Fano atacaram guarnições federais e tomaram áreas estratégicas, inclusive, segundo relatos, visando postos administrativos nas principais cidades da região. A resposta do governo foi imediata: tropas federais foram mobilizadas, o estado de emergência foi declarado em Amhara, e operações intensas foram lançadas, incluindo uso de drones e bombardeios aéreos para atacar supostas bases da milícia. A partir desse momento, a região mergulhou novamente em insegurança generalizada, confrontos, ataques a civis, restrições de movimento, cortes de internet em muitas áreas e forte presença militar nas ruas.
O impacto para a população civil tem sido terrível e multidimensional. Relatórios de organizações de direitos humanos apontam que hospitais e ambulâncias foram atacados ou tiveram o acesso bloqueado, o que prejudicou gravemente o atendimento médico: pacientes não conseguem tratamento, ambulâncias foram abatidas e profissionais de saúde foram detidos ou ameaçados por suposta “colaboração com Fano”. Centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir, muitos vivem como deslocados internos, sem moradia estável, sem acesso seguro a água, comida ou saneamento. Escolas foram fechadas, serviços básicos interrompidos, e a rotina de comunidades inteiras foi transformada, crianças sem aula, agricultores sem trabalhar, famílias divididas. A fome, a insegurança e o medo se tornaram parte do cotidiano.
Os dados recentes confirmam a gravidade da situação, entre 2023 e 2025, foram registrados centenas de incidentes violentos em Amhara, segundo o monitoramento da ACLED, 1.395 eventos entre março de 2024 e fevereiro de 2025, incluindo combates entre forças armadas e milícias, além de ataques a civis. Em março de 2025, o exército etíope informou ter abatido mais de 300 combatentes de Fano em apenas dois dias de ofensiva, ação que marca a retomada de operações intensas contra a insurgência. Apesar dessas ações, grupos de direitos humanos reportam que o conflito continua, com relatos de prisões arbitrárias, execuções extrajudiciais, violência sexual, destruição de casas e violações sistemáticas ao direito internacional humanitário.
O panorama atual (2024–2025) aponta para uma crise entrincheirada, mesmo com períodos de queda na intensidade de confrontos, e algumas rendições declaradas por milicianos, a insegurança permanece na vida diária de milhões. A fragmentação do poder, a falta de uma liderança clara da milícia Fano, e a persistente desconfiança entre autoridades federais e regionais dificultam qualquer negociação de paz. Para o futuro, o risco é de que Amhara se transforme em uma zona cronicamente instável, com deslocamentos prolongados, crises humanitárias, colapso institucional e perpetuação da violência.
Esse conflito nascido da guerra que supostamente terminara, revela algo muito maior, a fragilidade estrutural de um Estado que ainda não resolveu feridas étnicas, desigualdades e disputas por poder. A radicalização das milícias, a resposta militar severa e a desproteção de civis apontam para um ciclo de guerra que parece longe de terminar. Sem compromisso real com reconciliação, justiça e reconstrução social, o sofrimento da população de Amhara tende apenas a se intensificar, e, mais uma vez, corre o risco de passar despercebido pela atenção global.
Burkina Faso e Mali: O jihadismo que se expande no Sahel
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Nos últimos dez anos, Burkina Faso e Mali se tornaram o epicentro da mais rápida expansão jihadista do planeta, transformando o Sahel em uma região marcada por massacres, deslocamentos forçados e colapso estatal. O conflito atual tem raízes em 2012, quando rebeldes tuaregues e grupos ligados à Al-Qaeda tomaram o norte do Mali, criando um vácuo de poder que nunca foi totalmente recuperado. Desde então, grupos como o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado à Al-Qaeda, e o Estado Islâmico no Sahel (ISSP), intensificaram operações e expandiram-se para Burkina Faso após 2015, explorando fronteiras porosas, ausência de serviços públicos e tensões étnicas profundamente enraizadas. Hoje, esses grupos controlam ou influenciam vastas áreas rurais, impondo sistemas de governança paralela, cobrando impostos e atacando sistematicamente aldeias, civis e forças de segurança.
A situação se agravou sobretudo após os golpes militares que derrubaram governos civis nos dois países, Mali em 2020 e 2021, e Burkina Faso em 2022. As juntas militares prometeram restaurar a segurança por meio de uma política de força, expulsaram militares franceses, aproximaram-se do grupo Wagner (agora Forças Africanas de Defesa – ADF) e intensificaram operações ofensivas. No entanto, especialistas afirmam que a estratégia militarizada aumentou as violações de direitos humanos e aprofundou o ciclo de violência. As Forças Armadas de Mali e Burkina Faso têm sido acusadas por entidades como a Human Rights Watch e a ONU de execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e massacres comunitários, ampliando o ressentimento local e alimentando o recrutamento jihadista, especialmente entre comunidades fulani (peul), historicamente marginalizadas.
O impacto humano é devastador. Burkina Faso tornou-se, em 2024, o país que mais desloca pessoas proporcionalmente à sua população, com mais de 2,1 milhões de deslocados internos, segundo o ACNUR. Em Mali, ataques jihadistas e operações militares deixaram milhares de mortos, provocando êxodos em massa de regiões como Mopti, Gao e Kidal. Aldeias inteiras foram abandonadas, escolas e centros de saúde fecharam, rotas comerciais foram bloqueadas e cidades como Djibo e Dori vivem sob cerco permanente, sem acesso regular a alimentos, combustíveis ou assistência médica. O CICV alerta que algumas comunidades enfrentam níveis de fome comparáveis a zonas de guerra prolongada, e que a ajuda humanitária tem sido impedida pelo aumento de ataques a comboios e pela insegurança generalizada.
Apesar desse cenário sombrio, os governos militares de Burkina Faso e Mali sustentam que estão “retomando territórios” e “eliminando terroristas”, embora analistas independentes indiquem que a presença jihadista continua a se expandir. A região do chamado “triângulo das três fronteiras”, entre Burkina Faso, Mali e Níger, permanece como uma das áreas mais violentas do mundo. Especialistas do Instituto de Estudos de Segurança (ISS África) afirmam que, sem um processo de reconciliação com comunidades marginalizadas, sem governança local eficaz e sem uma estratégia regional unificada, a crise tende a se prolongar por anos. Em 2025, a perspectiva mais provável é a consolidação de zonas sob controle jihadista de fato, enquanto Estados enfraquecidos recuam para centros urbanos, deixando grande parte do Sahel entregue a conflitos intermináveis.
Somália: A guerra sem fim contra o Al-Shabaab

Desde o início dos anos 2000, a Somália vive um conflito prolongado e multifacetado, marcado pela insurgência persistente do grupo jihadista Al-Shabaab, pela fragilidade histórica do Estado e pelas disputas de poder entre facções, clãs e autoridades federais ou regionais. O país, que já lutou contra a fragmentação após a queda do regime de 1991, nunca alcançou uma paz duradoura. O Al-Shabaab, formado a partir de uma ramificação radical de grupos islâmicos e ex-milícias claníacas, transformou-se em protagonista de uma guerra de guerrilha, com ataques suicidas, emboscadas, bombardeios e controle de vastas zonas rurais.
Nos anos recentes, o conflito se intensificou: segundo dados de 2024-2025, centenas de milhares de somalis já foram deslocados por causa da violência e da insegurança crônica. Só em 2024, foram registrados mais de 428 mil novos deslocamentos internos em várias regiões afetadas. As ofensivas governamentais contra o grupo jihadista e os episódios de violência inter-clânica(entre diferentes clãs), especialmente nas regiões de Gedo, Bay, Galmudug, Middle e Lower Shabelle, têm gerado um efeito devastador: civis pagam o preço com morte, fome, doenças, interrupção de serviços básicos e fuga em massa.
A crise humanitária na Somália ultrapassa a guerra: secas e desastres climáticos agravam o sofrimento. Em 2025, estima-se que cerca de 4,4 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda, segundo autoridades locais. A combinação de conflitos, deslocamentos repetidos, colapso de infraestruturas e insegurança impede acesso a água, saneamento, saúde e educação. Escolas fechadas, hospitais alvos de ataques ou abandonados, ambulâncias sem condições de operar, crianças, mulheres e idosos sofrem com a falta de proteção e serviços mínimos.
Nos últimos meses, 2025 incluiu novos episódios de violência que mostram a força renovada do Al-Shabaab. Em julho, o grupo executou ataque suicida contra a academia militar de Mogadíscio, matando soldados e demonstrando sua capacidade de atingir alvos simbólicos do Estado. Ataques como o de fevereiro de 2025 em Bal’ad, no distrito de Middle Shabelle, também mostram que a ofensiva continua com a retomada de território e forte instabilidade em várias regiões controladas pelo governo, mas vulneráveis. A despeito de operações militares e presença de missões internacionais de paz, o estado de insegurança, deslocamento e vulnerabilidade permanece como realidade para milhões de somalis.
A persistência desse conflito e seus efeitos fazem da Somália um dos casos mais graves, e mais negligenciados, de crise humanitária e guerra de longa duração na África. A mistura de insurgência, fragmentação política, colapso de serviços públicos, desastres naturais e deslocamentos contínuos evidencia que, sem uma estratégia ampla (que combine segurança, reconstrução institucional, ajuda humanitária e apoio ao desenvolvimento), a tragédia tende a se prolongar por décadas. Para além dos números, há vidas apagadas, gerações perdidas e um país preso numa espiral de sofrimento que, infelizmente, nunca parece ter fim.
Quando a África queima, o mundo desvia o olhar

A análise dos conflitos que devastam o continente africano revela um padrão doloroso e constante. Guerras longas, complexas e profundamente humanas que, apesar de sua gravidade, raramente ocupam a atenção global. Cada uma dessas crises, do Sudão em colapso ao Sahel cercado pelo jihadismo, da Somália fragmentada às tensões que envolvem minerais na República Democrática do Congo, passando pelas disputas internas da Etiópia, carrega uma particularidade local, mas todas são atravessadas pelos mesmos elementos estruturais, fragilidade estatal, disputas étnicas e políticas, desigualdade histórica, intervenção externa irregular e a permanente luta por recursos naturais que sempre atraíram interesses internacionais.
O que impressiona, ao examinar esse mosaico de violência, não é apenas a escala da tragédia, mas o silêncio que a acompanha. Ano após ano, milhares de civis são mortos, milhões são expulsos de suas casas, comunidades inteiras desaparecem, e ainda assim esses acontecimentos raramente ganham manchetes duradouras. A seletividade da comoção global faz com que conflitos africanos sejam tratados como ruídos distantes, quase naturais, como se a violência fosse parte inevitável da paisagem. Não é. São escolhas políticas, econômicas, diplomáticas (internas e externas) que moldam esse destino. E a negligência internacional contribui diretamente para sua persistência.
Há também uma injustiça histórica que atravessa essas crises. A África, continente que sempre foi visto como fornecedor de riqueza mineral, mão de obra, terras e rotas estratégicas, acaba abandonada quando seus povos precisam de proteção, reconstrução e justiça. A mesma comunidade internacional que disputa influência geopolítica sobre o continente vira o rosto quando a fome avança, quando deslocamentos alcançam números inéditos, quando crianças são recrutadas ou cidades inteiras caem sob domínio de milícias. A omissão global, somada à incapacidade ou ao autoritarismo de Estados fragilizados, consolida ciclos de violência que se renovam a cada geração.
Ao final, o retrato que emerge desses conflitos não é apenas da África em chamas, mas de um mundo que se acostumou à ideia de que algumas vidas valem menos. E é justamente por isso que reportar, investigar e amplificar essas histórias é tão urgente. Dar nome às vítimas, expor os interesses, explicar as forças em jogo, romper o silêncio. Não para reforçar estereótipos de miséria, mas para exigir responsabilidade, visibilidade e humanidade. A África não é um continente condenado à guerra. É um continente que precisa ser ouvido, reconhecido e incluído na agenda global com a mesma importância que qualquer outra região do planeta. A paz na África só será possível quando o mundo inteiro decidir que ela importa.

