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Xi volta a citar ‘Armadilha de Tucídides’ e defende que China e EUA evitem confronto

Presidente chinês recorre a conceito histórico para tratar da rivalidade com os Estados Unidos e sustenta que competição entre as duas potências pode ocorrer sem resultar em conflito

O presidente da China, Xi Jinping, voltou a recorrer à chamada “Armadilha de Tucídides” para falar sobre as relações entre China e Estados Unidos. Durante visita à Casa Branca nesta quinta-feira (24), o líder chinês defendeu que a competição entre as duas maiores potências econômicas do mundo seja mantida dentro de limites capazes de evitar um confronto.

A declaração ocorreu durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington. Segundo reportagem de O Globo, ao voltar a utilizar o conceito, Xi reforça uma leitura da relação bilateral baseada na disputa entre uma potência consolidada e outra que ampliou significativamente sua influência econômica, tecnológica e militar nas últimas décadas.

“É possível superar a Armadilha de Tucídides”, afirmou Xi durante a visita.

O presidente chinês também defendeu que as Forças Armadas dos dois países mantenham diálogo regular e aprimorem mecanismos de comunicação e prevenção de crises.

Mas o que é a ‘Armadilha de Tucídides’?

A expressão descreve uma situação em que a ascensão de uma nova potência provoca tensões com outra que já ocupa uma posição dominante no sistema internacional.

O conceito tem origem na obra do historiador grego Tucídides, que analisou a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta e seus aliados entre 431 a.C. e 404 a.C.

Na interpretação histórica, o crescimento do poder de Atenas despertou temor em Esparta, então potência predominante na Grécia. Essa alteração no equilíbrio de forças criou condições para uma rivalidade que acabou em guerra.

Séculos depois, essa dinâmica passou a ser utilizada como referência para analisar disputas entre grandes potências.

O termo “Armadilha de Tucídides”, porém, ganhou projeção contemporânea principalmente por meio do cientista político Graham Allison, professor da Universidade Harvard.

Allison analisou 16 episódios históricos, ao longo de aproximadamente 500 anos, nos quais uma potência em ascensão desafiou a posição de outra já estabelecida. Em 12 desses casos, segundo sua análise, a disputa terminou em guerra.

A tese não estabelece que o conflito seja inevitável, mas chama atenção para os riscos produzidos por mudanças profundas no equilíbrio internacional de poder.

China e Estados Unidos no centro da comparação

No cenário atual, a teoria costuma ser aplicada à relação entre China e Estados Unidos.

Os Estados Unidos ocupam há décadas posição central no sistema internacional, enquanto a China ampliou de maneira expressiva sua participação na economia mundial, modernizou suas Forças Armadas e expandiu sua presença diplomática e tecnológica.

A competição entre Washington e Pequim atualmente envolve áreas estratégicas como comércio internacional, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, segurança e influência geopolítica.

Há ainda questões capazes de provocar crises militares, especialmente Taiwan. Pequim considera a ilha parte de seu território e se opõe a movimentos de independência, enquanto os Estados Unidos mantêm relações não oficiais com Taiwan e são seu principal fornecedor de armas.

É nesse contexto que Xi utiliza a referência histórica.

Ao mencionar a Armadilha de Tucídides, o presidente chinês argumenta que a ascensão da China não precisa necessariamente resultar em uma guerra com os Estados Unidos.

Xi defende competição ‘dentro de limites’

Durante a passagem por Washington, Xi afirmou que China e Estados Unidos não precisam deixar de competir, mas defendeu que essa disputa seja conduzida de maneira controlada.

Segundo o presidente chinês, a competição deve funcionar como uma corrida na qual os dois países buscam avançar, e não como uma disputa em que necessariamente um lado precisa vencer e o outro perder.

Xi também sustentou que os interesses econômicos dos dois países estão profundamente interligados e defendeu cooperação em diferentes áreas.

O encontro ocorre em meio a uma intensa competição comercial e tecnológica entre Washington e Pequim. Os dois governos vêm discutindo tarifas, acesso a mercados, inteligência artificial e mecanismos para evitar que divergências provoquem crises de maior proporção.

IA também entra nas discussões

A inteligência artificial esteve entre os assuntos abordados durante a visita.

Xi afirmou que China e Estados Unidos estão entre as principais nações no desenvolvimento da tecnologia e defendeu que ambos tenham responsabilidade sobre a maneira como a IA será desenvolvida e administrada.

O presidente chinês sustentou ainda que o avanço da inteligência artificial deve permanecer sob controle humano e ser direcionado ao bem-estar das pessoas.

Comércio e investimentos também fizeram parte das declarações. Xi afirmou que a China continua aberta à atuação de empresas norte-americanas e pediu tratamento considerado justo às companhias chinesas que atuam nos Estados Unidos.

Expressão já foi usada outras vezes por Xi

Esta não é a primeira vez que Xi Jinping recorre à Armadilha de Tucídides para falar sobre o futuro das relações sino-americanas.

O líder chinês utiliza o conceito há mais de uma década para argumentar que um confronto entre uma potência estabelecida e outra em ascensão não deve ser tratado como inevitável.

A expressão voltou a ganhar destaque neste ano. Durante encontro com Trump em Pequim, em maio, Xi já havia questionado se China e Estados Unidos conseguiriam superar a chamada armadilha e construir uma nova forma de relacionamento entre grandes potências.

Agora, em Washington, o presidente chinês voltou ao conceito para sustentar que a competição pode ser administrada sem que as divergências entre os dois países avancem para um confronto direto.

A referência também evidencia como a relação entre Washington e Pequim ultrapassou as disputas comerciais. O debate envolve o equilíbrio global de poder e a maneira como duas potências com interesses concorrentes administrarão áreas de tensão nas próximas décadas.

Fonte: O Globo

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