Produtores aguardam chuvas mais regulares para avançar com o plantio da soja, enquanto El Niño, fertilizantes caros e tensões no mercado internacional aumentam as incertezas para o novo ciclo
A safra brasileira de grãos 2026/27 começa em meio a um contraste que desafia os produtores. De um lado, a soja atravessa um período de valorização, sustentada pelo mercado internacional e pela menor disponibilidade do produto no Brasil. Do outro, as máquinas entram no campo sob custos elevados e uma pergunta que será decisiva para o resultado da temporada: quando as chuvas chegarão com regularidade suficiente para garantir o plantio?
Em diferentes regiões produtoras, agricultores acompanham diariamente as previsões meteorológicas e as condições de umidade do solo antes de acelerar a semeadura. Embora o calendário sanitário já permita o plantio em alguns dos principais estados, a liberação oficial não significa necessariamente que seja seguro colocar as sementes no solo.
No Norte, Noroeste, Centro-Oeste e Oeste do Paraná, a semeadura foi autorizada a partir de 1º de setembro. Em Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, o plantio está liberado desde o dia 7. Goiás terá abertura somente em 25 de setembro.
O comportamento das chuvas nas próximas semanas será determinante para definir o ritmo da safra. Em Mato Grosso, precipitações pontuais registradas antes do fim do vazio sanitário não foram suficientes para garantir uma largada generalizada, e produtores avaliam a quantidade de água armazenada no solo antes de avançar com as máquinas.
Plantar agora ou esperar?
O dilema é estratégico.
Uma chuva isolada pode fornecer umidade suficiente para a germinação, mas, se não houver novas precipitações nos dias seguintes, as altas temperaturas podem secar rapidamente as camadas superficiais do solo e comprometer o estabelecimento das plantas.
Nesse cenário, antecipar demais o plantio aumenta o risco de falhas na germinação e necessidade de replantio. Esperar excessivamente, por outro lado, pode atrasar todo o calendário agrícola.
A decisão tem consequências que vão além da soja. Nas propriedades que cultivam milho segunda safra, cada semana perdida na semeadura da oleaginosa pode estreitar posteriormente a janela ideal para o milho.
Por isso, produtores de diferentes estados adotam estratégias distintas. Alguns pretendem iniciar os trabalhos assim que as primeiras chuvas oferecerem condições mínimas; outros preferem esperar uma reposição mais consistente da umidade no solo.
El Niño aumenta a incerteza
O clima ganha ainda mais importância diante das projeções de fortalecimento do El Niño durante a primavera e o início do verão.
As projeções disponíveis indicam elevada probabilidade de um evento muito forte, condição que pode alterar a distribuição das chuvas no território brasileiro. Os efeitos, porém, não serão iguais em todas as regiões.
Partes do Sul podem enfrentar precipitações acima da média, enquanto áreas do Centro-Norte estão sujeitas a períodos de chuva abaixo do padrão e temperaturas mais elevadas. Para o produtor, o problema não está apenas no volume total acumulado ao longo da safra, mas principalmente na regularidade das precipitações nos momentos críticos da cultura.
Chuvas irregulares no Brasil Central podem atrasar a reposição da umidade, interromper o plantio e elevar o risco de replantio. Em uma temporada na qual a expansão da área deve ser pequena, eventuais perdas de produtividade ganham peso ainda maior sobre o resultado nacional.
As primeiras estimativas apontam entre 49 milhões e 49,5 milhões de hectares de soja, crescimento de apenas 0,3% a 1,2% sobre a temporada anterior. Com pouca expansão territorial, o tamanho da safra dependerá principalmente do rendimento das lavouras.
Soja valorizada oferece algum alívio
Enquanto o produtor olha para o céu, o mercado oferece um contraponto positivo.
A soja brasileira iniciou setembro sustentada pela valorização internacional, pelas compras asiáticas, pelos prêmios nos portos e pela menor disponibilidade de grãos no mercado interno. Em Chicago, contratos acima de US$ 13 por bushel também ajudaram a melhorar as referências de comercialização no Brasil.
No fechamento de 10 de setembro, a saca de 60 quilos era negociada a R$ 162 no disponível em Paranaguá e Rio Grande. Para outubro, as referências chegavam a R$ 163 em Paranaguá e R$ 164 em Rio Grande. Em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, a cotação alcançava R$ 146; em Rio Verde e Jataí, Goiás, R$ 140.
O movimento abre uma oportunidade para proteger parte das margens da próxima safra, especialmente em um ano de custos elevados.
Mesmo assim, o produtor brasileiro permanece cauteloso. Aproximadamente 15% da soja 2026/27 estava comercializada antecipadamente, percentual pouco superior aos 14,5% observados no mesmo período do ciclo anterior, mas abaixo da média histórica próxima de 21%.
Oriente Médio também entra na conta
A instabilidade internacional acrescenta outra variável ao planejamento.
Os conflitos e tensões no Oriente Médio afetam o agronegócio por diferentes canais. A oscilação do petróleo interfere nos mercados de energia e biocombustíveis, enquanto problemas logísticos ou restrições de oferta podem pressionar os fertilizantes.
Essa exposição é particularmente relevante para o Brasil, que importa mais de 80% dos fertilizantes que utiliza. Mudanças no câmbio, nos preços internacionais, nas rotas marítimas ou na oferta dos grandes fornecedores podem, portanto, chegar diretamente ao custo das lavouras brasileiras.
E uma parcela importante desse custo já está contratada. Até o fim de julho, cerca de 82% da demanda nacional de fertilizantes destinada à soja havia sido negociada.
Em Sorriso, Mato Grosso, uma tonelada de fosfato monoamônico (MAP) equivalia a aproximadamente 45,3 sacas de soja, relação de troca 27,7% superior à média dos quatro anos anteriores. Isso significa que o produtor precisa comprometer mais grãos para pagar pelo mesmo insumo.
Preço alto não garante margem
É justamente aí que aparece o principal paradoxo da safra 2026/27.
A valorização da soja melhora a perspectiva de receita, mas não elimina o aumento das despesas. Fertilizantes, defensivos, sementes, máquinas, crédito e frete continuam pressionando os custos por hectare.
Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, estimativas recentes apontam custo próximo de R$ 5 mil por hectare para a implantação da soja.
Isso faz com que a gestão comercial se torne tão importante quanto a produtividade. Com parte dos custos definida antes mesmo da semeadura, aproveitar momentos de valorização para fixar preços de uma parcela da produção pode reduzir a exposição a uma eventual queda futura.
Ao mesmo tempo, vender antecipadamente um volume elevado envolve outro risco: comprometer uma produção que ainda depende das chuvas para existir.
A safra 2026/27 começa, portanto, cercada por variáveis que o produtor não controla. El Niño, distribuição das chuvas, conflitos internacionais, petróleo, fertilizantes, câmbio e preços em Chicago podem mudar o cenário ao longo dos próximos meses.
A decisão imediata, porém, é muito mais concreta. Nas principais regiões produtoras, agricultores observam o solo e as previsões meteorológicas antes de colocar as máquinas definitivamente em campo.
A soja está valorizada. Os custos também. E, entre uma variável e outra, será a regularidade das chuvas desta primavera que começará a definir quanto da expectativa para a nova safra poderá efetivamente se transformar em grãos.

