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Queimadas disparam no Amazonas após primeiro turno, e autoridades investigam possível motivação política

Explosão de focos de calor após a votação de 4 de outubro levanta suspeitas de incêndios criminosos coordenados; órgãos ambientais investigam possíveis responsáveis enquanto estiagem e El Niño agravam a crise.

O Amazonas enfrenta uma intensificação das queimadas após o primeiro turno das eleições presidenciais, realizado em 4 de outubro de 2026. O aumento dos focos de calor chamou a atenção de pesquisadores, ambientalistas e autoridades, que investigam a possibilidade de incêndios provocados intencionalmente, inclusive com eventual motivação política.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam que o estado registrou 1.639 focos de incêndio entre os dias 1º e 15 de outubro. Na região metropolitana de Manaus, o número de registros também apresentou crescimento expressivo em comparação com o mesmo período do ano anterior.

A coincidência entre o aumento das queimadas e o calendário eleitoral levou autoridades a considerar diferentes hipóteses sobre a origem dos incêndios. Entre elas está a possibilidade de que grupos estejam se aproveitando do período de estiagem para provocar fogo deliberadamente e gerar repercussão política.

Ibama aponta suspeita de incêndios com motivação política

O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que as disputas políticas nas redes sociais podem estar incentivando a ocorrência de incêndios criminosos na Amazônia.

Segundo Schmitt, as equipes de fiscalização identificaram situações em que pessoas estariam colocando fogo deliberadamente em áreas próximas a estradas. Um dos episódios relatados pelo dirigente foi observado por uma equipe aérea durante uma operação na região de Autazes.

O presidente do Ibama afirmou que os incêndios podem ter diferentes motivações. Entre elas estão a abertura de áreas para atividades econômicas, como a pecuária, e a possibilidade de provocar desordem para explorar politicamente a crise ambiental.

A eventual motivação política, contudo, ainda precisa ser demonstrada pelas investigações. A identificação dos responsáveis e a comprovação de seus objetivos dependem da análise de evidências pelas autoridades competentes.

Governo investiga possível ação coordenada

O governo federal também anunciou investigações para apurar se existe organização por trás da sequência de incêndios registrados no Amazonas.

Em 14 de outubro, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, informou que as equipes responsáveis pela força-tarefa haviam aberto 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência para apurar possíveis condutas criminosas.

As investigações envolvem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Civil do Amazonas, com apoio de outros órgãos de segurança. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também foi envolvida na apuração da hipótese de ação organizada.

O governo busca identificar os responsáveis pelos incêndios e verificar se os casos estão relacionados a uma estratégia coordenada, semelhante a episódios criminosos registrados anteriormente na Amazônia.

Dados indicam crescimento após a votação

Levantamentos divulgados por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) apontaram aumento expressivo dos focos de calor depois do primeiro turno.

Em 19 municípios analisados no Amazonas, foram registrados 308 focos entre 26 de setembro e 3 de outubro. Entre 5 e 12 de outubro, o número subiu para 1.068, mais que o triplo do período anterior.

A diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, destacou que a ação humana é a principal origem dos incêndios florestais na região. Ela também ressaltou que o atraso das chuvas e a influência do El Niño contribuem para deixar a vegetação mais suscetível à propagação das chamas.

O aumento dos registros após a eleição, por si só, não comprova motivação política. Para estabelecer essa relação, é necessário investigar as circunstâncias de cada ocorrência, os responsáveis e possíveis conexões entre os episódios.

Disputa política e interesses econômicos

Além da hipótese de motivação eleitoral, pesquisadores e organizações ambientais apontam possíveis interesses econômicos por trás de parte dos incêndios. O fogo pode ser utilizado para limpar terrenos, facilitar a expansão da pecuária ou preparar áreas para ocupação irregular.

O Greenpeace Brasil alertou para semelhanças entre o atual aumento das queimadas e o chamado “Dia do Fogo”, registrado em 2019, quando investigações apontaram a existência de articulações para promover incêndios criminosos no Pará.

A organização levantou a hipótese de que parte dos incêndios recentes possa ter sido provocada com objetivos eleitorais. Essa interpretação, porém, não comprova que todos os focos registrados tenham a mesma origem ou motivação.

O cenário evidencia a necessidade de separar as evidências ambientais das disputas políticas, evitando atribuir responsabilidades antes da conclusão das investigações.

Estiagem agrava a crise ambiental

Enquanto as autoridades investigam a origem dos incêndios, as condições climáticas dificultam o combate ao fogo. A estiagem prolongada, as altas temperaturas e a vegetação seca favorecem a propagação das chamas e aumentam a concentração de fumaça.

O governo federal mobilizou brigadistas, aeronaves e veículos para reforçar as operações no estado. A fumaça também provocou impactos na saúde pública e na rotina de moradores de Manaus e de municípios do interior.

O desafio das autoridades é conter os incêndios, proteger as populações afetadas e identificar eventuais responsáveis por ações criminosas.

Investigação deve esclarecer responsabilidades

A possibilidade de uso político dos incêndios acrescenta uma dimensão preocupante à crise ambiental no Amazonas. Caso seja comprovada a existência de ações coordenadas para provocar queimadas com o objetivo de interferir no debate eleitoral, os responsáveis poderão responder pelas infrações identificadas.

Até que as investigações sejam concluídas, entretanto, a motivação política deve ser tratada como hipótese, e não como fato comprovado.

A apuração independente dos episódios será fundamental para esclarecer se o aumento dos incêndios decorre de ações isoladas, interesses econômicos, articulações organizadas ou uma combinação desses fatores, em um período no qual a estiagem amplia os riscos para a floresta e para a população amazônica.

Fonte: Folha de S.Paulo

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