Criador Railson Tavares aposta na apicultura como fonte de renda e aponta demanda, assistência técnica e adaptação às condições amazônicas como fatores para expansão da atividade
Entre animais, produtos agropecuários e novas tecnologias apresentadas na 48ª Expoagro, uma atividade de menor escala também busca ampliar seu espaço no Amazonas: a produção de mel. Para quem vive da criação de abelhas, o estado oferece mercado consumidor e condições naturais favoráveis em determinadas regiões, mas também impõe desafios relacionados ao clima, à disponibilidade de floradas e ao manejo adequado das colmeias.
Criador de abelhas e proprietário da Mel Doce Ferroada, Railson Tavares cresceu em contato com a atividade. A produção começou no ambiente familiar e, nos últimos anos, passou a ganhar maior exposição por meio das redes sociais e da participação em eventos.
“Eu já nasci nesse meio. Sou filho de criador. Sempre trabalhamos com a nossa produção familiar e com venda direta ao consumidor. Há mais ou menos cinco anos resolvemos divulgar mais o nosso trabalho”, conta.
A estratégia de comercialização direta, segundo Tavares, permite melhorar o retorno financeiro da produção. Ele estima que, dependendo do produto e da forma de comercialização, a venda direta pode representar uma margem significativamente superior à obtida sem esse contato com o consumidor.
Muita vegetação não significa florada abundante
Uma das particularidades apontadas pelo criador parece contraditória à primeira vista. Apesar da enorme cobertura vegetal amazônica, nem toda vegetação oferece as condições necessárias para uma produção elevada de mel.
“Aqui em Manaus e no Amazonas em geral, nós temos muito verde e pouca flor”, explica.
Por isso, a estratégia utilizada pela Mel Doce Ferroada é distribuir as colmeias em diferentes pontos, em vez de concentrar toda a criação em uma única área.
“Quem quer criar abelhas e ter um retorno satisfatório precisa espalhar os apiários, espalhar sua criação em vários locais diferentes. Assim você consegue ter mais chance de produzir uma quantidade interessante de mel”, afirma.
Segundo Tavares, existe competição natural por alimento. A distribuição das caixas em diferentes áreas permite aproveitar floradas distintas e reduzir a concentração excessiva de abelhas em um mesmo ambiente.
Calor interfere na produção
As temperaturas elevadas também podem modificar a rotina das colônias.
Tavares explica que, quando o calor se intensifica, parte das abelhas deixa de dedicar tempo à coleta de néctar e passa a trabalhar na própria colmeia para controlar a temperatura interna.
“Quando o clima é muito quente, as abelhas sentem bastante. O tempo que elas gastariam coletando néctar para produzir mel, elas passam na colmeia ventilando para manter a temperatura”, explica.
Para o produtor, as mudanças nas condições climáticas já representam uma preocupação para a atividade.
“Essa mudança de clima atrapalha bastante a produção de mel e a criação de abelhas”, acrescenta.
Por outro lado, algumas áreas do Amazonas apresentam características especialmente favoráveis. Railson destaca as regiões de várzea, onde, segundo ele, determinadas floradas podem proporcionar condições interessantes ao longo do ano.
Manejo exige acompanhamento constante
Além das condições naturais, conhecimento técnico é determinante para o resultado da criação.
Na apicultura — criação de abelhas com ferrão — Tavares afirma que as colmeias precisam de acompanhamento frequente. Falhas de manejo podem enfraquecer as colônias, provocar divisões indesejadas e comprometer a produção.
“Elas necessitam de manejo, no mínimo, a cada 15 dias. Se você não faz o manejo correto, essas colmeias ficam fracas, podem se dividir e não dão mel”, explica.
Para ele, orientação técnica é um dos principais fatores para quem pretende transformar a criação em atividade econômica.
“É um ramo muito bom, que traz uma renda satisfatória, mas tem que ter conhecimento técnico. Tendo conhecimento, vai deslanchar”, avalia.

Mercado ainda comporta novos produtores
Na avaliação de Tavares, o mercado amazonense ainda possui espaço para crescimento.
A produção da propriedade é familiar e, segundo ele, ainda está longe de atender todo o potencial de consumo existente no estado.
“O mercado é muito grande e a necessidade é muito grande. São muitos consumidores e tem muitos criadores de abelhas aqui no Amazonas. Mesmo assim, o mercado ainda comporta todos”, afirma.
A comercialização direta ao consumidor é uma das estratégias utilizadas pela empresa para aumentar a rentabilidade. Railson estima que essa modalidade pode proporcionar retorno entre 100% e 150% sobre o produto, embora o percentual dependa dos custos e das condições de comercialização.
A produção varia conforme o tipo de abelha, a localização das colmeias e as condições de cada apiário. Por isso, o criador evita tratar a produtividade como um número fixo.
“Depende do apiário também. Não é uma matemática exata”, ressalta.
Abelhas com e sem ferrão têm produções diferentes
Railson também chama atenção para uma distinção importante dentro da atividade.
A criação de abelhas sem ferrão é denominada meliponicultura, enquanto a apicultura trabalha com abelhas do gênero Apis, que possuem ferrão.
Segundo o produtor, as duas modalidades apresentam características produtivas diferentes. Na criação de abelhas sem ferrão, ele observa maior produção durante determinados meses do verão, enquanto as abelhas utilizadas na apicultura podem produzir em diferentes épocas, conforme florada e condições ambientais.
Essa diferença permite ao produtor pensar em estratégias distintas para complementar a renda ao longo do ano.
Informação também combate resistência à atividade
Para Railson, um dos obstáculos à expansão da apicultura não está somente dentro da propriedade, mas na percepção das pessoas sobre as abelhas com ferrão.
Ele considera que ainda existe receio relacionado às chamadas abelhas africanizadas, frequentemente associadas apenas ao risco de ataques.
“Criaram esse mito da abelha assassina. Acidentes acontecem na natureza, sim, mas em um apiário identificado e com equipamento de proteção individual correto, é possível trabalhar”, afirma.
O produtor lembra que essas abelhas estão presentes no ambiente brasileiro há décadas e defende que, com conhecimento e manejo adequado, podem ser aproveitadas economicamente.
Para Tavares, ampliar a atividade no Amazonas depende justamente da combinação entre incentivo, conhecimento técnico e entrada de novos produtores. Em um mercado que, segundo ele, ainda possui demanda, profissionalizar a criação pode transformar o mel de uma produção familiar complementar em uma fonte relevante de renda.
Na 48ª Expoagro, a presença de pequenos criadores como a Mel Doce Ferroada ajuda a mostrar outra dimensão do agronegócio amazonense: atividades que ocupam pouco espaço, dependem diretamente da biodiversidade e podem encontrar na organização da produção e no acesso ao consumidor caminhos para crescer.
Texto: Beatriz Costa
Foto: Josieli Nascimento