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Novas tarifas dos EUA pressionam exportações brasileiras e acirram disputa comercial

Sobretaxas atingem 23,1% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano e chegam a 37,5% para determinados produtos; exportações aos EUA acumulam queda de 9,7% em 2026

As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros ampliaram a pressão sobre as exportações nacionais e abriram uma nova frente de tensão nas relações comerciais entre os dois países. Com alíquotas adicionais que podem chegar a 37,5% para determinados produtos, empresas brasileiras enfrentam perda de competitividade em um dos principais mercados consumidores do mundo.

As medidas foram adotadas pelo governo do presidente Donald Trump com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana e estabeleceram diferentes níveis de sobretaxa sobre mercadorias originárias do Brasil.

Segundo levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as novas medidas alcançam aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.

A maior pressão recai sobre um conjunto equivalente a 16,5% das vendas brasileiras ao país, atingido simultaneamente por duas medidas e sujeito, portanto, a uma sobretaxa acumulada de 37,5%. Entre os produtos estão máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.

Exportações aos EUA já caem 9,7%

Os efeitos aparecem nos números do comércio exterior.

De janeiro a agosto de 2026, o Brasil exportou US$ 24,1 bilhões para os Estados Unidos, queda de 9,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

Em volume, a retração foi ainda maior: 13,6%.

Somente em agosto, primeiro mês completo após a entrada em vigor das novas tarifas, o valor das exportações brasileiras cresceu 12,1%, chegando a US$ 3,19 bilhões. O resultado, entretanto, foi sustentado principalmente pela elevação dos preços dos produtos vendidos.

O volume físico embarcado para os Estados Unidos caiu 3,1% no mês.

A redução acumulada não se distribui igualmente pela economia. Levantamento da Amcham Brasil aponta retração nas vendas aos Estados Unidos nos três grandes setores: 4,9% na indústria de transformação, 28,9% na indústria extrativa e 26,7% na agropecuária.

Produtos brasileiros enfrentam tarifas de até 37,5%

A atual estrutura tarifária é resultado da combinação de diferentes decisões adotadas por Washington.

Em julho, os Estados Unidos estabeleceram uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Outra medida, relacionada a uma investigação norte-americana sobre trabalho forçado nas cadeias globais, estabeleceu uma sobretaxa adicional de 12,5% para parte das mercadorias brasileiras.

Quando as duas incidem sobre um mesmo produto, a carga adicional chega a 37,5%.

Segundo o MDIC, cerca de 1,9% das exportações brasileiras aos EUA estão sujeitas apenas à tarifa adicional de 25%. Outros 4,7% enfrentam exclusivamente a alíquota de 12,5%, enquanto 16,5% são atingidos pelas duas medidas simultaneamente.

O impacto, portanto, não ocorre sobre toda a pauta exportadora.

Cerca de 52,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos permanecem fora dessas novas sobretaxas e das tarifas setoriais adicionais, ficando sujeitas às tarifas ordinárias norte-americanas. Entre os produtos nessa situação estão café, carnes, aeronaves, suco de laranja, frutas e grande parte das exportações de celulose.

Madeira, fumo e produtos do agro registram perdas

Entre os produtos atingidos pelas tarifas mais elevadas, as quedas são expressivas.

Dados compilados pela Amcham mostram que as exportações dos produtos submetidos às tarifas de 25% a 37,5% recuaram 29,1% entre janeiro e agosto, passando de US$ 5,1 bilhões para US$ 3,6 bilhões.

Entre as principais mercadorias sobretaxadas, a madeira de coníferas registrou retração de 55,3%. As vendas de fumo não manufaturado caíram 39,9%, enquanto as de sebo bovino diminuíram 39,4%. O granito trabalhado teve queda de 37,4%.

Para os exportadores, a tarifa pode produzir diferentes consequências: redução das margens, necessidade de renegociar contratos, perda de competitividade diante de fornecedores de outros países ou redirecionamento das mercadorias para novos mercados.

Governo brasileiro negocia redução das tarifas

Brasília e Washington retomaram as negociações para tentar reduzir as barreiras.

Em 31 de agosto, representantes dos dois governos realizaram uma reunião virtual para discutir especificamente as duas decisões norte-americanas baseadas na Seção 301.

Participaram do encontro os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além do representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.

Os dois lados concordaram em dar continuidade às negociações. O governo brasileiro reafirmou que pretende buscar uma solução por meio do diálogo comercial.

As conversas ocorreram depois de um contato telefônico entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, no qual as tarifas também foram discutidas.

Empresas afetadas recebem medidas de apoio

Enquanto tenta negociar a retirada ou redução das tarifas, o governo brasileiro também adotou medidas para diminuir o impacto sobre empresas exportadoras.

Uma delas permite a prorrogação excepcional, por mais um ano, de determinados regimes de drawback afetados pelas tarifas norte-americanas.

O mecanismo permite suspender tributos incidentes sobre insumos utilizados na produção de mercadorias destinadas à exportação. A prorrogação busca evitar que empresas sejam penalizadas tributariamente por contratos que deixaram de ser cumpridos em razão das novas barreiras comerciais.

O governo também anunciou R$ 18,5 bilhões em linhas de financiamento para empresas atingidas pelas tarifas norte-americanas.

Disputa comercial também entra no debate político

A escalada tarifária ultrapassou a esfera econômica e entrou diretamente no debate político brasileiro.

As medidas norte-americanas passaram a ser discutidas em meio à campanha para as eleições de outubro, com governo e oposição divergindo sobre as razões para o endurecimento da política comercial dos Estados Unidos e sobre a estratégia que o Brasil deveria adotar diante de Washington.

Do ponto de vista econômico, porém, o principal desafio é impedir que a disputa provoque uma perda permanente de espaço das empresas brasileiras no mercado norte-americano.

Os Estados Unidos continuam sendo um destino estratégico para produtos de maior valor agregado da indústria nacional, apesar da redução recente das vendas.

A continuidade das negociações entre Brasília e Washington será decisiva para determinar se as novas tarifas se tornarão uma barreira de longo prazo ou se haverá espaço para novas exceções e redução das alíquotas.

Enquanto não houver acordo, exportadores brasileiros precisarão lidar com um mercado norte-americano mais caro, mais restritivo e cada vez mais disputado.

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