Afif Al Jawabri é Engenheiro Agrônomo e empresário, mora em Redenção no Pará, na qual planta também no município de Tomé Açu.
Pitaya é uma fruta que já é conhecida em todo o Brasil por conta de seus inúmeros benefícios para a nossa saúde. Hoje temos a APPIBRAS – Associação dos Produtores de Pitayas do Brasil, que está levando o cultivo da fruta através da agricultura familiar por todo país.

Você foi o primeiro presidente da APPIBRAS, o que representou essa presidência pra ti?
…”A presidência da APPIBRAS foi muito importante para mim pois abriu portas, não só aqui no Brasil, como fora do país, a APPIBRAS por ser uma referência, empresas que querem importar a fruta mantinham contato comigo e me traziam muitas informações do mercado internacional da Pitaya. Tive a oportunidade de conhecer grande parte dos produtores do Brasil e alguns de outros países, além de outras entidades como ABRAFRUTAS, que tem apoiado muito a APPIBRAS, em especial na questão da exportação, ela tem dado apoio, incentivando aos produtores começarem a exportar.”…
Nos fale sobre a questão técnica das pitayas com as pragas e doenças?
…” Quando eu comecei a cultivar em 2018, em Redenção, não havia ainda o Cancro da Pitaya (Neoscytalidium dimidiatum) no Brasil, doença gravíssima, porém em 2022 comprei um sitio em Tomé Açu -PA com pomar implantado e em produção, na vistoria não detectei o cancro, mas infelizmente o pomar já estava afetado pela, acabei tendo que me dedicar bastante nesse assunto, estudar e investigar, e continuo nesta jornada. Hoje já conseguimos conviver com a doença e retomando o aumento de produtividade, acredito que no futuro próximo teremos variedades tolerantes ao cancro da Pitaya e um pacote tecnológico mais assertivo para oferecer aos produtores, pois infelizmente o cancro vem realmente dizimando pomares.
O cancro realmente é gravíssimo. Fui agrônomo em uma região durante uns 12 anos, atendia todas as pessoas que me procuravam com assuntos de diversas culturas, mas grave, igual o cancro da pitaya, eu não tinha me deparado com nenhuma doença ou praga.
Temos feito missões técnicas para países com mais experiencia que nos no assunto a exemplo do Vietnã, Índia, pra China entre outros. Existem Técnicos e produtores de várias partes do mundo pesquisando e buscando soluções, nos espelhamos nos países que já passaram por isso antes da gente, no caso do Vietnã, Indonésia, China, Índia. Aqui na região de Tomé Açu, onde temos a maior colônia de japoneses do Pará, tem uma cooperativa, CAMTA, a mais antigas, melhor do Cooperativa mista do Pará, iniciando a colonização japonesa em 1929, foram eles que iniciaram o plantio de pitayas nesta região porém já tiveram muitos pomares dizimados pelo cancro. Acredito que nós estamos no caminho certo, já avançamos nesses últimos três anos e em breve a maioria dos produtores vão conseguir conviver com esse problema através de variedades tolerantes, adubações balanceadas, fortalecendo a planta e alguns defensivos
que que estão em fase registros, outra ferramenta são os biólogos com muitos trabalhos que têm ajudado na questão da resistência através do meio ambiente do solo favorecendo o desenvolvimento radicular e fortalecendo a plantas.
Como está cultura da fruta no Brasil?
…”A pitaya no Brasil é uma cultura recente, ela existe comercialmente há 25 anos, enquanto que o Vietnã, que é o maior produtor mundial, eles têm a produção há mais de 100 anos. Então eu acredito que nós não estamos ocupando nem 5% do mercado potencial do Brasil ainda, quer dizer, a maioria da população nem conhece a fruta, a tendência do mercado da pitaya é só crescer. Nesse momento, diminuiu o ritmo de crescimento em função do cancro. A partir do momento que tivermos as cultivares tolerantes ao cancro, aí o ritmo de crescimento volta a aumentar. É uma cultura muito interessante, principalmente para a pequena propriedade, a maioria dos pomares no Brasil é de 1 a 3 hectares. Então é uma cultura que é mais para pequenos produtores, onde muitos usam mão de obra familiar.”…
Quanto você produz anualmente?
…”Em função do cancro, temos que fazer podas de muitos cladódios (galhos) que tem como reflexo a diminuição da produtividade, mas esse ano aqui no pomar de Tomé Açu estamos com uma produtividade media de 10 toneladas por hectare tendo uma produção acima de 100 toneladas.
Para o próximo ano, com tudo que foi implantado e com novas áreas entrando em produção, é esperado uma produção 150 toneladas.
Não exportei diretamente ainda, mas a nossas pitayas já foram exportadas através de outra empresa, mandamos para São Paulo eles reembalam, preparam as frutas e exportam.”…
Você produz em dois municípios do Pará, em Redenção e Tomé Açu, que quantidade de pés você tem aproximadamente?
…”Em Redenção onde comecei com a intenção apenas de demonstrar aos pequenos produtores uma alternativa de renda, na região que ninguém conhecia a pitaya. Plantei meio hectare, depois plantei mais um hectare e meio, em termo de tutores, em Redenção são dois mil tutores e em Tomé Açu são são 16 mil tutores, no total vão dar 17 hectares.
A produção de Redenção é vendida no mercado local, tem os supermercados parceiros lá, a medida que aumentou a produção, passamos a enviar para os municípios vizinhos Rio Maria, Xinguara. Em Tomé Açu estamos á 200 quilômetros da capital Belém, onde entrego em hipermercados da capital e também enviamos via aérea para São Paulo, Brasília, Goiânia e outras capitais.”…
Nos conte um pouco sobre sua viagem ao Vietnã?
…”A viagem ao Vietnã nós fizemos num grupo de 12 produtores de várias regiões do Brasil. Lá nós fomos recebidos pelo Instituto SOFRI, que é o Instituto como se fosse a Embrapa e Emater juntas, ou seja, um instituto de pesquisa e extensão rural, um Instituto em frutas tropicais, um dos mais renomados em relação à pitaya.
No Vietnã passaram, pelo que os produtores brasileiros estão passando agora com relação ao cancro, em 2009 a 2013, conseguindo superar com variedades novas tolerantes, equilíbrio nutricional e tratos culturais.
Estas variedades com tolerância ao cancro possuem padrões ainda melhores de frutas, mas são protegidas por propriedade genética, tem royalties na muda, royalties em cada quilo vendido, é um processo mais complexo até conseguirmos a importação, mas estamos trabalhando neste sentido.
Foi muito importante nossa visita lá, para vermos que é possível sim conviver com cancro, assim como eles estão convivendo lá depois de terem suas produções dizimadas.”…
Nos conte um pouco sobre o os municípios de Redenção e Tomé Açu?
…”O município de Redenção é um município polo do Sul do Pará são 12 municípios que se abastecem em Redenção, onde tem hospitais, escolas e comércio melhores da região então os moradores desses municípios acabam indo até a cidade. Um município com aproximadamente 80 mil habitantes, mas tem no mínimo 130 mil circulantes lá e é um município que comercialmente atende a população de 500 mil pessoas que estão nesses outros municípios próximos. Lá tiveram vários ciclos, o ciclo do ouro, ciclo da madeira e o ciclo da pecuária que ainda é muito forte, pois é grande a pecuária lá na região. Nós começamos a agricultura em 1996, desde os primeiros 20 hectares, fui atrás do incentivo de governo, fomos convencer produtores a irem para lá, e hoje eu acredito que já deve ter próximo de 350 mil hectares plantados na região, então já podemos dizer que a região agrícola também. É um município muito pujante, a maioria da população descende de goianos, mineiros, paulistas, sulistas, muitos gaúchos, capixabas e nordestinos. A culinária é mais do centro-oeste, alguma coisa do sul, não tem nada parecido com Belém apesar de estarmos no mesmo Estado.
E , Tomé Açu é um município fantástico, antes de conhecer eu já achava interessante, aqui tem essa colônia japonesa que tem uma cooperativa, eles começaram em 1929 começaram com a produção de batatas, hortaliças, a pimenta foi quando eles conseguiram progredir mais financeiramente e depois eles desenvolveram outras culturas, aqui tem bastante açaí, muito cacau, pitaya o Pará é o quarto produtor nacional,. Tem o Sistema Agroflorestais, o SAFTA, de tomé Açu, que é reconhecido mundialmente, aqui tem um grande cuidado com o equilíbrio da produção, ensinamentos da cultura japonesa, é muito bacana o trabalho que eles fazem e gostaria que os pequenos produtores de Redenção aprendessem com Tomé Açui. É muito interessante o município de Tomé Açu, produz muito cacau, açaí, pimenta, Pitaya, dendê, maracujá, entre outras frutas e também alguns óleos a exemplo da andiroba. Tem um comércio bastante pujante porque se alguma dessas culturas vai mal as outros vão bem dando renda pra toda região.”