A evolução tecnológica no cenário militar é marcada pela incorporação de sistemas cada vez mais sofisticados para incrementar capacidades, aumentar o poder de combate e a velocidade de reação das Forças Armadas. No caso do Exército Brasileiro, a estratégia para alcançar tal evolução buscou combinar obtenções por aquisição pura de equipamentos e tecnologias no exterior (como veículos blindados, sistemas de defesa antiaérea e sistemas de comando e controle) com o fortalecimento Base Industrial de Defesa (BID), por meio de contratos que englobassem atividades de engenharia com diversas profundidades, envolvendo assim, obtenção por pesquisa e desenvolvimento.
Projetos como o da VBTP MSR Guarani, do Sistema de Armas Remotamente Controlado (SARC) REMAX, dos Morteiros (60, 81 e 120 mm), do Sistema ASTROS 2020 (contemplando o Míssil Tático de Cruzeiro MTC-300), dos Radares SABER M60 e M200, de Sistemas Terrestres Remotamente Pilotados (SVTRP) e da Fabricação Nacional do Obuseiro 105 mm Autorrebocado, ilustram como o País busca equilibrar a dependência externa com a autonomia tecnológica, fomentando o domínio de capacidades estratégicas e a criação de soluções adaptadas às demandas brasileiras.
Nesse contexto, o Sistema de Fabricação do Exército (Sis Fab) apresenta-se como ator de fundamental importância. Sob a gerência da Diretoria de Fabricação (DF), seus Arsenais de Guerra (AG) desempenham um papel crucial na produção, manutenção, modernização, revitalização, nacionalização e obtenção de sistemas, meios e materiais necessários às operações militares, como a fabricação de morteiros; a manutenção e recuperação de obuseiros, armamentos leves, rádios, optrônicos, Instrumentos Óticos de Direção e Controle de Tiro (IODCT) e da cozinha de campanha ARPA; o desenvolvimento de soluções de engenharia para blindagem de equipamentos de engenharia, como escavadeiras e carregadeiras; a revitalização de portadas; e a fabricação das redes de camuflagem URUTAU. Cabe destacar, ainda, os trabalhos de modernização da VBR-MSR EE – 9 Cascavel – Nova Geração, de nacionalização de peças e componentes da VBC CC Leopard 1A5 BR e, em breve, a fabricação nacional do Obuseiro 105 mm Autorrebocado.

Percebe-se, assim, que a atuação do Sistema de Fabricação é fundamental para que se assegure o permanente estado de prontidão fabril e tecnológica à Força Terrestre, devendo estar preparado para manter essa contribuição efetiva e atualizada diante dos desafios futuros.
Em face das tecnologias envolvidas nos SMEM modernos, a demanda por serviços de engenharia em nível industrial tem crescido ao longo dos anos. Os sistemas e subsistemas que compõem esses materiais necessitam de mão de obra altamente especializada e de equipamentos específicos para as diversas atividades de manutenção, bem como de suprimento de difícil aquisição no mercado nacional. Como exemplo, as VBC Cav (Centauro II), em processo de aquisição pelo Exército, incorporam tecnologias complexas e para as quais não há solução nacional preexistente.
Apesar de ainda estarem no início do ciclo de vida, o planejamento do domínio gradual do conhecimento deve ser iniciado desde já, de modo que a estrutura de manutenção esteja pronta e capacitada para atuar de maneira eficiente, minimizando períodos de indisponibilidade e restrição na frota.
Além disso, nas últimas décadas, o EB optou por uma crescente terceirização do desenvolvimento de produtos de defesa e de sua cadeia logística de manutenção, deixando em segundo plano a modernização da capacidade fabril interna. Entretanto, a melhor estratégia seria aproveitar a complementariedade existente entre as atuações dos AG e da BID. Essa interação sinérgica, sob a liderança do Sistema de Fabricação, incorpora a expertise e a inovação características da iniciativa privada à capacidade dos AG de internalizar a fabricação de itens estratégicos e/ou de baixa demanda, bem como de adquirir os equipamentos necessários para tal.
A coordenação desse processo pelo Sis Fab ajuda a mitigar as dificuldades enfrentadas pela indústria de defesa nacional para se manter economicamente sustentável, frente à baixa demanda interna, falta de continuidade nos contratos e instabilidade orçamentária. Ao longo da história, esses desafios resultaram no colapso de empresas importantes como Engesa (responsável por blindados como Cascavel, Urutu e Osório); Bernardini, Motopeças; e, mais recentemente, na recuperação judicial da Avibras.
O contexto internacional contemporâneo reforça ainda mais a necessidade de manter e modernizar a capacidade fabril própria. A Guerra da Ucrânia evidenciou a importância da rápida adaptação tecnológica no campo de batalha, com o uso massivo de drones, inteligência artificial e sistemas autônomos, redefinindo estratégias e táticas militares.
Em um ambiente onde novas tecnologias surgem e disseminam-se em velocidades sem precedentes, depender exclusivamente de empresas ou de importações significa “correr atrás do prejuízo”, em vez de liderar o processo de desenvolvimento. Para acompanhar essa evolução, o Exército precisa investir de forma contínua na modernização do seu Sistema de Fabricação, garantindo não apenas a manutenção da produção nacional, mas também a capacidade de inovar e integrar novas tecnologias aos seus equipamentos. Este fato é corroborado pela inciativa “7.1.1.2 – Aperfeiçoar o Sistema de Fabricação” do Plano Estratégico do Exército 2024-2027, que apresenta a preocupação do Comando da Força nesse sentido.
Investimentos na modernização da infraestrutura de apoio à manutenção, de fabricação e de desenvolvimento dos Arsenais de Guerra, com foco em áreas como manufatura aditiva, prototipagem rápida, laboratórios de eletrônica, laboratórios de metrologia e caracterização de materiais, engenharia assistida por computador (CAE) e inteligência artificial seriam fundamentais na preparação desses Arsenais para a absorção de novas demandas tecnológicas de alta complexidade.
Além de um maior esforço orçamentário nesse sentido, a destinação de recursos oriundos de acordos de offset para o desenvolvimento fabril, a transferência de tecnologias e a capacitação de pessoal na área tecnológica também pode ser um vetor valioso. Apesar de não apresentar resposta tão imediata quanto o recebimento direto de equipamentos prontos, a priorização de investimentos que retornem em conhecimento, domínio tecnológico e capacidade industrial, incorporados à Força gera um ambiente propício ao surgimento de soluções criativas e disruptivas em nichos tecnológicos, cenário fundamental no setor de Ciência e Tecnologia. Robustecer a Base Industrial Orgânica não significa apenas investir em infraestrutura, mas sim estruturar uma política contínua de transferência de tecnologia, estímulo à inovação e preservação de capacidades estratégicas.
Nesse processo, a formação e capacitação de pessoal é, sem dúvida, um dos aspectos de maior importância a serem considerados. O fortalecimento do capital humano, articulado com processos padronizados e gestão integrada do conhecimento, permite não apenas atender às necessidades atuais, mas também criar uma base sólida para absorver novas tecnologias de forma autônoma, eficiente e alinhada à estratégia de defesa nacional.
Finalmente, ações estratégicas voltadas à aproximação do Sis Fab aos Parques Regionais de Manutenção têm se mostrado eficazes e devem ser incentivadas e ampliadas, uma vez que resultam em maior eficiência no apoio à manutenção dos SMEM distribuídos por um país de dimensões continentais. Essa aproximação permitirá ao Sis Fab uma atuação mais abrangente e próxima desses meios, ao mesmo tempo em que fortalecerá a capacidade industrial e tecnológica dos Parques, considerando que a Diretoria de Fabricação é uma Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT) integrante do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército (SCTIEx). Um canal técnico entre esses atores, ou mesmo uma subordinação, poderia ser analisada.
Tal sinergia potencializa capacidades voltadas ao projeto, à pesquisa e ao desenvolvimento, favorecendo a interação com estruturas empresariais e acadêmicas nacionais. Como exemplo, a aproximação do Sis Fab aos Parques Regionais de Manutenção 3 e 5, bem como ao Batalhão Central de Manutenção e Suprimento (BCMS), organizações militares vocacionadas à manutenção de viaturas blindadas e mecanizadas, proporcionaria o robustecimento industrial e tecnológico dessa estrutura de manutenção. Isso criaria as bases necessárias para a adequada gestão da Viatura Blindada de Combate de Cavalaria (VBC Cav) Centauro II, bem como das futuras VBC Fuz, VBC CC e VBC OAP.
Sem essa visão estratégica e prospectiva, o Brasil corre o risco de repetir erros do passado, perdendo não apenas indústrias, mas também a capacidade soberana de projetar, fabricar e sustentar seus próprios sistemas de defesa, um patrimônio que, uma vez perdido, torna-se extremamente difícil e custoso de reconstruir.