Por Beatriz Costa, editora-chefe.
Em Manaus, o avanço da frota motorizada e a ausência de um planejamento urbano integrado transformaram o trânsito da capital amazonense em um dos mais perigosos do país. Segundo o engenheiro Manoel Paiva, especialista em mobilidade urbana, a cidade enfrenta hoje uma combinação de fatores que colocam em risco a segurança viária e a qualidade de vida dos seus habitantes. “Temos muitos veículos para poucas e desordenadas vias de circulação”, resume.
O retrato da mobilidade manauara: motorização acelerada e desigualdade no acesso
Os dados mais recentes do IBGE e do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM) mostram o tamanho do desafio. Em outubro de 2025, Manaus ultrapassou 1 milhão de veículos automotores registrados, o que representa 79% da frota total do estado. São 2,23 habitantes por veículo, um índice semelhante ao de grandes metrópoles brasileiras, mas sem a infraestrutura correspondente.
O transporte individual domina a cidade: 604 mil automóveis e 353 mil motocicletas respondem por 92,7% da frota, mas transportam apenas 35% da população. Já o transporte coletivo, com cerca de 4,4 mil ônibus e micro-ônibus, carrega mais da metade dos manauaras. Para o engenheiro, esse descompasso é reflexo de décadas de um modelo de mobilidade centrado no automóvel, “que deixou de lado a coletividade e o interesse público”.
Manoel Paiva explica que a participação dos modos não motorizados, como caminhada e bicicleta, caiu drasticamente nos últimos sete anos, de 30% para apenas 11,8%. “A expansão urbana desordenada, a falta de calçadas seguras e a ausência de infraestrutura cicloviária empurraram as pessoas para os veículos motorizados”, avalia. A consequência é clara: congestionamentos, poluição e aumento dos acidentes.

Acidentes e fatores de risco: motociclistas e pedestres são as principais vítimas
Os números são alarmantes. Entre janeiro e outubro de 2025, 13.490 vítimas de sinistros foram registradas em Manaus, uma média de 45 por dia. As motocicletas estão envolvidas em 38% desses acidentes, e os motociclistas e pedestres respondem por 82% das mortes no trânsito. “São os grupos mais vulneráveis, e infelizmente os menos protegidos pelas políticas públicas”, afirma Paiva.
Segundo ele, a precariedade das calçadas e passarelas, a ausência de sinalização adequada e a má conservação das vias são fatores determinantes. “A cidade precisa de um Programa Permanente de Conservação e Sinalização do Sistema Viário, com atenção especial às zonas Norte, Leste e Oeste, onde se concentram os maiores índices de vítimas fatais”, defende.
Outro ponto crítico é a formação e requalificação dos motociclistas que atuam no transporte de cargas e passageiros. “O processo é caro, burocrático e pouco acessível. Precisamos de um programa inclusivo, integrado ao setor produtivo e ao governo, que garanta segurança e profissionalização”, acrescenta.
As vias mais perigosas e a urgência de um sistema seguro
A análise feita pelo engenheiro revela que os acidentes fatais se concentram em determinados pontos. As três vias mais perigosas de Manaus são: a Rodovia Torquato Tapajós, com 26 vítimas fatais; o Rodoanel Metropolitano, com 25; e a Alameda Cosme Ferreira, com 22. “Esses trechos são verdadeiras zonas críticas. Precisam de intervenções de engenharia, fiscalização inteligente e pequenas obras de correção geométrica para reduzir o risco de colisões”, explica.
Manoel Paiva defende a adoção do conceito de Sistema Seguro, baseado em práticas reconhecidas internacionalmente. “Os erros humanos são inevitáveis, mas o sistema viário deve ser projetado para que esses erros não resultem em mortes”, afirma. Essa abordagem, segundo ele, implica uma responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado e sociedade civil. “Não se trata apenas de mudar o comportamento do motorista, mas de repensar o ambiente urbano.”
Transporte público como eixo da transformação
Para Paiva, a saída mais eficaz e sustentável está no fortalecimento do transporte coletivo. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU) prevê um investimento de R$ 2,8 bilhões em Manaus para implantação de um sistema BRT elétrico de 47,9 km. O engenheiro vê o projeto com otimismo. “É a confirmação de um modelo que Manaus já iniciou lá atrás, em 1984, com o Sistema Integrado de Transporte Urbano. Se bem implementado, o BRT pode reduzir acidentes, congestionamentos e emissões de carbono.”
Ele reforça que o transporte coletivo deve ser o ocupante prioritário das vias urbanas. “As pessoas são mais importantes que os automóveis. Precisamos garantir um sistema seguro, confortável, pontual e integrado física e tarifariamente. Quanto mais o transporte público for eficiente, menos a população dependerá do carro e da motocicleta.”
Planejamento urbano, engenharia e políticas de acalmamento
O engenheiro é categórico ao afirmar que o problema de Manaus não é a falta de planejamento, mas o modelo ultrapassado de desenvolvimento urbano. “Continuamos repetindo soluções do século passado, viadutos, túneis e alargamento de vias, enquanto o trânsito só piora”, critica.
Ele propõe a criação de um Programa de Mobilidade Comunitária, que envolva os próprios moradores em pequenas intervenções nos bairros. “A ideia é melhorar calçadas, acessibilidade, sinalização e mobiliário urbano com participação popular, tornando Manaus uma cidade para pessoas, não para carros.”
Entre as medidas de acalmamento de tráfego, Paiva destaca as faixas elevadas, ciclovias, zonas 30 e calçadas acessíveis. “Reduzir a velocidade média dos automóveis e aumentar a eficiência do transporte coletivo é a combinação ideal para salvar vidas”, defende.
Educação, políticas públicas e metas ousadas
Manoel Paiva acredita que a redução dos acidentes passa por metas de longo prazo, inspiradas em países como Suécia e Holanda, que adotaram o conceito de Visão Zero, política de tolerância zero com mortes no trânsito. “Zerar mortes não precisa ser um sonho apenas de países ricos. Manaus pode e deve perseguir essa meta com planejamento, gestão e compromisso público”, afirma.
O engenheiro também reforça o papel da educação viária desde a infância. “Precisamos envolver todos, pedestres, ciclistas, motoristas e passageiros, em um processo contínuo de conscientização. A mudança de comportamento é tão importante quanto o investimento em infraestrutura.”
Uma lição para o futuro
Para ele, Manaus precisa tirar uma lição dura dos números atuais: “A cidade foi planejada para carros, mas é habitada por pessoas. Precisamos inverter essa lógica.”
Com base nas projeções do ENMU, que estimam reduzir em 8 mil o número de mortes no trânsito até 2054 nas regiões metropolitanas do país, Manoel Paiva acredita que a meta é possível, mas depende de vontade política e compromisso coletivo.
“Mobilidade urbana é mais que deslocamento. É sobre como as pessoas vivem, trabalham e sobrevivem na cidade. E cada vida poupada no trânsito é uma vitória de todos nós”, conclui.