Site icon Agro Floresta Amazônia – Principais Notícias do Agro!

Mercado de carbono abre oportunidades bilionárias para o agro, mas exige cautela

Recuperação de pastagens degradadas concentra o maior potencial de geração de créditos; regulamentação, certificação e custos de monitoramento ainda limitam a expansão dos projetos

O agronegócio brasileiro pode se tornar um dos principais fornecedores de créditos de carbono do mercado internacional, impulsionado especialmente pela recuperação de pastagens degradadas e pelo aumento do estoque de carbono no solo. A oportunidade, entretanto, depende de avanços na regulamentação, na certificação dos projetos e na criação de mecanismos capazes de transformar resultados ambientais em ativos comercializáveis.

Um estudo realizado pela Carbonn Nature, com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), estima que projetos de descarbonização da agropecuária brasileira possam gerar até 314,3 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em créditos entre 2025 e 2035. O levantamento considera diferentes estágios de desenvolvimento das iniciativas e não representa uma previsão de receita garantida.

Pastagens concentram maior potencial

A recuperação de áreas degradadas e a melhoria do manejo do solo respondem pela maior parte do volume estimado. Segundo o estudo, aproximadamente 312,1 milhões de créditos estão associados a projetos de carbono no solo, enquanto outros 2,2 milhões poderiam resultar da recuperação de metano no manejo de dejetos animais.

A recuperação de pastagens pode contribuir para elevar a produtividade pecuária, melhorar as condições do solo e reduzir a pressão pela abertura de novas áreas. Além dos possíveis ganhos ambientais, essas práticas podem aumentar a eficiência das propriedades e fortalecer sua capacidade de enfrentar períodos de seca e outras adversidades climáticas.

O potencial, porém, não significa que todos os créditos serão efetivamente gerados ou vendidos. Para chegar ao mercado, os projetos precisam cumprir metodologias reconhecidas, comprovar os resultados obtidos e demonstrar que as reduções ou remoções de emissões atendem aos critérios exigidos pelos compradores.

Regulamentação é decisiva para competitividade

A implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei nº 15.042/2024, é considerada uma etapa importante para dar maior segurança jurídica ao mercado. O governo também trabalha nas regras para a transferência internacional de resultados de mitigação, mecanismo que permite a comercialização de reduções ou remoções de emissões entre países.

Em julho de 2026, foi aberta consulta pública sobre uma proposta de resolução que estabelece condições e limites para essas transferências. A minuta prevê autorização para até 50 milhões de toneladas de CO₂ equivalente referentes a resultados obtidos entre 2031 e 2035.

Especialistas alertam que a demora na definição das regras pode reduzir a competitividade brasileira. A preocupação é que compradores internacionais firmem acordos com outros países enquanto o Brasil ainda estrutura seus mecanismos de autorização e certificação. Ao mesmo tempo, a regulamentação precisa assegurar a integridade ambiental dos créditos e evitar que a busca por receitas comprometa os compromissos climáticos nacionais.

Certificação exige investimento e monitoramento

A geração de créditos de carbono depende de um processo conhecido como mensuração, relato e verificação, ou MRV. Esse sistema permite medir as reduções ou remoções de emissões, documentar os resultados e submetê-los à avaliação independente.

No caso do carbono armazenado no solo, a comprovação pode exigir coleta de amostras, análises laboratoriais e acompanhamento ao longo de vários anos. Esses procedimentos elevam os custos e podem dificultar a participação de pequenos e médios produtores.

Por isso, especialistas defendem modelos coletivos, como cooperativas e associações, capazes de reunir propriedades, diluir despesas e viabilizar projetos em escala. A organização coletiva também pode facilitar o acesso à assistência técnica, à certificação e aos compradores internacionais.

Carbono não deve ser tratado como “terceira safra”

Apesar das oportunidades econômicas, pesquisadores ressaltam que o mercado de carbono não deve ser apresentado como uma nova commodity agrícola ou como fonte permanente de renda para todos os produtores. Diferentemente da venda de grãos ou de outros produtos agropecuários, a comercialização de créditos envolve compromissos de longo prazo para manter os benefícios climáticos alcançados.

Projetos podem ter duração de 20 ou 30 anos, período em que incêndios, secas, mudanças no manejo e alterações na propriedade podem comprometer a permanência do carbono. Esses riscos exigem planejamento, monitoramento e, em alguns casos, mecanismos de proteção financeira.

A principal função dos créditos, segundo os especialistas, é contribuir para financiar a transição para sistemas produtivos de menor emissão. A receita pode complementar a atividade agropecuária, mas sua viabilidade depende dos custos do projeto, do preço dos créditos e da capacidade de comprovar os resultados ambientais.

Metas climáticas também entram na conta

A expansão das vendas internacionais traz outro desafio: garantir que o Brasil não comercialize resultados de mitigação necessários ao cumprimento de sua própria meta climática, estabelecida na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Acordo de Paris.

Quando um resultado de mitigação é autorizado para transferência internacional, deve ser realizado um ajuste correspondente para evitar que a mesma redução de emissões seja contabilizada pelo país vendedor e pelo comprador. Dessa forma, a comercialização pode aumentar o esforço necessário para que o Brasil cumpra seus compromissos nacionais.

Especialistas defendem que o país priorize a venda de resultados excedentes às suas necessidades climáticas. A estratégia busca conciliar a atração de investimentos internacionais com a preservação da capacidade brasileira de alcançar suas metas de redução de emissões.

Oportunidade vai além da venda de créditos

O mercado de carbono pode gerar benefícios econômicos que ultrapassam a comercialização dos ativos. A recuperação de pastagens, a melhoria da fertilidade do solo, o manejo mais eficiente dos rebanhos e a redução das emissões de metano podem contribuir para aumentar a produtividade e reduzir custos ao longo do tempo.

Nesse contexto, o carbono passa a ser visto como um instrumento de financiamento da modernização agropecuária. Para que o potencial brasileiro se converta em resultados concretos, será necessário combinar regulamentação eficiente, segurança jurídica, assistência técnica, certificação confiável e mecanismos que permitam a participação de produtores de diferentes portes.

O desafio é aproveitar a demanda internacional sem transformar projeções em promessas de ganhos automáticos. A consolidação do mercado dependerá da capacidade de demonstrar resultados ambientais reais e de construir modelos economicamente viáveis para o setor produtivo.

Exit mobile version