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Lula analisa redução dos juros, de acordo com proposta do economista Lara Resende

Economista André Lara Resende defende nova coordenação entre políticas fiscal e monetária para reduzir os juros em 12 meses. Ideia divide especialistas e levanta discussões sobre inflação, câmbio, dívida pública e autonomia do Banco Central.

Uma proposta do economista André Lara Resende para reduzir a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, dos atuais 13,75% para aproximadamente 7,5% ao ano entrou no debate sobre os rumos da política econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A iniciativa ganhou repercussão em Brasília e provocou reações distintas entre integrantes do governo, economistas e representantes do mercado financeiro.

Um dos formuladores do Plano Real, Lara Resende defende uma mudança na maneira como o governo conduz as políticas fiscal e monetária. A proposta parte do entendimento de que os juros elevados representam um dos principais fatores de crescimento da dívida pública brasileira e dificultam o equilíbrio das contas nacionais.

A discussão ganhou força após a publicação de um artigo do economista no fim de setembro. A possibilidade de Lula conversar com Lara Resende sobre suas ideias também passou a ser comentada nos bastidores políticos e econômicos.

Entretanto, até 2 de novembro, não havia reunião oficialmente marcada entre o presidente e o economista. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo não está avaliando a adoção de um tabelamento dos juros nem o uso de reservas internacionais nos moldes defendidos pela proposta.

Lara Resende questiona o peso dos juros na dívida pública

O principal argumento do economista é que o desequilíbrio fiscal brasileiro não pode ser explicado apenas pelo volume de despesas primárias do governo. Para ele, o custo elevado dos juros pagos sobre a dívida pública exerce influência decisiva na deterioração das contas.

Na avaliação de Lara Resende, a manutenção de taxas elevadas aumenta o custo de financiamento do Estado, amplia o endividamento e dificulta a estabilização da relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB).

A proposta prevê a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que estabeleceria objetivos conjuntos para as políticas fiscal e monetária em um horizonte de quatro a cinco anos.

O novo mecanismo buscaria coordenar as decisões econômicas do governo e estabelecer parâmetros para a trajetória dos juros, levando em consideração a inflação, o crescimento econômico e a sustentabilidade da dívida pública.

Como funcionaria a redução da Selic

A ideia apresentada por Lara Resende prevê uma diminuição gradual da taxa básica de juros ao longo de aproximadamente 12 meses, até alcançar 7,5% ao ano.

O economista também defende uma atuação coordenada no mercado de câmbio, utilizando parte das reservas internacionais brasileiras para enfrentar eventuais pressões sobre o dólar durante o processo de redução dos juros.

O argumento é que uma política monetária menos restritiva poderia diminuir o custo financeiro da dívida pública, estimular investimentos produtivos e ampliar as condições de crescimento econômico.

Entretanto, a estratégia também envolve riscos. Uma redução acelerada dos juros pode provocar saída de capitais, desvalorização do real e aumento dos preços de produtos importados, pressionando a inflação.

Mercado financeiro demonstra preocupação

A proposta provocou apreensão entre gestores de instituições financeiras e economistas que defendem a manutenção da autonomia operacional do Banco Central.

Uma das principais preocupações é que a redução da Selic por determinação política, sem condições econômicas que sustentem a medida, comprometa a credibilidade da política monetária.

Críticos argumentam que a taxa de juros também responde às expectativas de inflação, à situação fiscal, ao comportamento do câmbio e ao cenário econômico internacional.

Nesse entendimento, uma redução artificial dos juros poderia provocar desvalorização cambial e aumento das expectativas inflacionárias, obrigando o Banco Central a elevar novamente a taxa básica no futuro.

O economista Sérgio Vale, da MB Associados, citou a experiência de 2012 como exemplo dos riscos de uma tentativa de reduzir os juros sem condições macroeconômicas adequadas.

A discussão também envolve a possibilidade de alterações institucionais para criar o Conselho Fiscal e Monetário Nacional, uma medida que poderia exigir mudanças no atual marco legal de autonomia do Banco Central.

Governo nega negociação formal sobre a proposta

Apesar da repercussão política, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não existe encontro agendado entre Lula e André Lara Resende.

O ministro também indicou que o governo não está considerando medidas como tabelar a Selic ou utilizar as reservas internacionais para financiar uma redução dos juros.

A posição sinaliza que a proposta ainda não representa uma decisão oficial da equipe econômica.

A deputada federal Gleisi Hoffmann, por outro lado, manifestou apoio ao debate e destacou a importância do artigo de Lara Resende para discutir o impacto dos juros sobre as contas públicas.

O episódio demonstra que a definição da política econômica do próximo mandato de Lula deverá envolver diferentes correntes de pensamento sobre o papel do Estado, o controle da inflação e a condução das contas públicas.

Dívida pública e inflação no centro do debate

A discussão ocorre em um momento de preocupação com o crescimento da dívida pública brasileira. Dados mencionados nas reportagens sobre a proposta apontam endividamento bruto próximo de R$ 11 trilhões, equivalente a aproximadamente 82,5% do PIB.

Para Lara Resende, a redução dos encargos financeiros poderia contribuir para interromper a trajetória de crescimento da dívida.

Os críticos, entretanto, defendem que a sustentabilidade fiscal depende também de medidas estruturais para controlar despesas, aumentar a previsibilidade das contas públicas e fortalecer a confiança dos investidores.

A questão central é encontrar uma combinação de políticas que permita reduzir o custo do crédito sem comprometer o controle da inflação e a estabilidade cambial.

Decisão sobre os juros continuará nas mãos do Banco Central

A proposta de Lara Resende abre uma discussão sobre os limites da coordenação entre governo e autoridade monetária.

Pelo atual modelo institucional, o Banco Central possui autonomia para conduzir a política monetária e perseguir a meta de inflação. A definição da Selic considera as condições econômicas e as expectativas para os preços.

Uma eventual mudança nesse arranjo exigiria discussão institucional e análise dos efeitos sobre a credibilidade da política econômica brasileira.

Até 2 de novembro de 2026, não havia anúncio de adoção da proposta pelo governo Lula.

O debate, porém, coloca os juros, a dívida pública e a autonomia do Banco Central entre os principais temas da agenda econômica brasileira para os próximos anos.

 

 

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