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IGP-10 sobe 1,47% com pressão no atacado e incerteza climática sobre a nova safra

Índice reverte queda de agosto, enquanto preços ao produtor avançam 1,90%. El Niño aumenta prêmio de risco e leva empresas a antecipar compras de grãos

A inflação medida pelo IGP-10 voltou a acelerar em setembro em meio à alta dos preços no atacado e ao aumento das incertezas sobre a safra brasileira 2026/27. O indicador subiu 1,47%, revertendo a queda de 0,51% registrada em agosto, segundo dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

Com o resultado, o Índice Geral de Preços – 10 acumula alta de 2,97% em 2026 e de 3,29% nos últimos 12 meses. Em setembro do ano passado, a variação mensal havia sido de 0,21%.

A principal pressão veio do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), componente de maior peso no IGP-10. O indicador avançou 1,90% em setembro, depois de registrar queda de 0,69% no mês anterior.

No setor agropecuário, a FGV identificou um fator que ganha importância justamente quando o Brasil começa a implantar uma nova safra. As incertezas relacionadas ao fortalecimento do El Niño elevaram o prêmio de risco e estimularam empresas consumidoras de grãos a antecipar compras.

El Niño mexe com preços antes mesmo de afetar a safra

Um dos aspectos mais importantes do levantamento é que os impactos do El Niño sobre a produção brasileira de grãos ainda não se materializaram.

O plantio da temporada 2026/27 está apenas começando.

Mesmo assim, a possibilidade de um evento climático intenso já influencia as decisões dos agentes econômicos.

Segundo o economista Matheus Dias, do FGV IBRE, as incertezas climáticas levaram empresas consumidoras de grãos a antecipar aquisições, contribuindo para a pressão sobre os preços entre agosto e setembro.

Na prática, o mercado começa a incorporar nos preços um risco futuro.

Indústrias e empresas que dependem de matérias-primas agrícolas podem antecipar compras quando enxergam possibilidade de problemas na oferta. Esse aumento da procura no presente pode elevar os preços mesmo antes de qualquer perda efetiva nas lavouras.

É justamente esse movimento que diferencia o cenário atual. A pressão observada em setembro não decorre de uma quebra já confirmada da safra brasileira, mas das expectativas sobre o que poderá acontecer durante o ciclo 2026/27.

Matérias-primas brutas sobem 3,91%

A abertura do IPA mostra onde a pressão foi mais intensa.

O grupo de Matérias-Primas Brutas avançou 3,91% em setembro, depois de subir apenas 0,23% em agosto.

Os Bens Finais passaram de queda de 0,62% para alta de 0,56%. Já os Bens Intermediários, que haviam recuado 1,98% em agosto, avançaram 0,47% em setembro.

A movimentação indica uma reversão importante em relação aos meses anteriores.

O próprio IGP-10 vinha registrando deflação. O índice caiu 1,13% em julho e outros 0,51% em agosto, antes de avançar 1,47% neste mês.

Setembro, portanto, interrompe uma sequência de dois meses de queda.

Agro entra no período decisivo da safra

A aceleração ocorre justamente quando o campo brasileiro começa uma nova temporada.

O plantio da safra 2026/27 está em sua fase inicial e, nas próximas semanas, as condições de chuva e temperatura passarão a ter influência crescente sobre as expectativas de produção.

O fortalecimento do El Niño adiciona incerteza a esse processo.

Os efeitos do fenômeno variam conforme região, intensidade e período do ano. Por isso, não é possível transformar a presença do El Niño automaticamente em previsão de perda de safra.

Para o mercado, porém, a possibilidade de alterações no regime de chuvas já é suficiente para modificar estratégias de compra e proteção contra riscos.

Esse comportamento ajuda a explicar por que os preços podem reagir antes que os impactos climáticos apareçam efetivamente nas lavouras.

Pressão também vem de fora do campo

O clima não explica sozinho a aceleração do índice.

A FGV também identificou volatilidade nas commodities da indústria extrativa em meio aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

Esse componente é particularmente relevante em um momento de forte oscilação nos mercados internacionais de energia.

Para o agronegócio, a combinação merece atenção porque energia e commodities agrícolas podem transmitir pressões por diferentes canais.

Petróleo e derivados interferem nos custos logísticos e de transporte, enquanto oscilações em determinadas matérias-primas afetam fertilizantes e outros produtos utilizados no processo produtivo.

Assim, a safra 2026/27 começa sob uma combinação de riscos climáticos e econômicos que pode influenciar os custos dentro e fora da propriedade rural.

Consumidor também sentiu aceleração

A alta do IGP-10 não ficou restrita aos preços ao produtor.

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) avançou 0,44% em setembro, depois de registrar queda de 0,47% em agosto.

A maior pressão veio da habitação. O grupo passou de queda de 1,10% para alta de 1,68%.

A tarifa de energia elétrica residencial subiu 7%, movimento associado ao fim do efeito do bônus de Itaipu. Outro destaque foi o reajuste nacional da tabela de cigarros, que levou o subitem a avançar 16,47%.

A alimentação, por sua vez, saiu de queda de 0,91% em agosto para uma pequena alta de 0,03% em setembro.

Construção sobe em ritmo menor

O terceiro grande componente do IGP-10, o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), apresentou comportamento diferente.

O indicador subiu 0,50% em setembro, desacelerando em relação à alta de 0,65% registrada em agosto.

Materiais e Equipamentos passaram de 0,20% para 0,30%, enquanto Serviços desaceleraram de 0,34% para 0,18% e Mão de Obra passou de 1,25% para 0,80%.

Entre os materiais, a FGV chamou atenção para os condutores elétricos, que acumulam alta de 23% em 12 meses. Segundo o instituto, o movimento acompanha a valorização internacional do cobre.

Setembro marca reversão dos preços

O resultado do IGP-10 mostra uma mudança importante na trajetória recente dos preços.

Depois das quedas de julho e agosto, setembro trouxe uma alta disseminada entre os principais componentes do indicador, liderada pelo atacado.

Para o agronegócio, o dado mais relevante está na origem de parte dessa pressão.

A nova safra brasileira ainda está começando e não há perdas produtivas consolidadas provocadas pelo El Niño. Mesmo assim, a perspectiva de condições climáticas adversas já influencia decisões comerciais e preços.

Isso coloca o clima novamente no centro das atenções do mercado.

Nas próximas semanas, a evolução do plantio e das chuvas será fundamental para determinar se o prêmio de risco incorporado aos preços tende a diminuir ou se as preocupações com a oferta ganharão força ao longo da safra 2026/27.

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