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Genética e tecnologia apontam novos caminhos para ampliar produção de leite no Amazonas

Especialistas ouvidos durante a 48ª Expoagro destacam melhoramento do rebanho, alimentação e manejo como estratégias para elevar produtividade sem necessidade de ampliar áreas de produção

A combinação entre melhoramento genético, alimentação adequada, manejo e incorporação de novas tecnologias está mudando as perspectivas da pecuária leiteira no Amazonas. Durante a 48ª Exposição Agropecuária do Amazonas (Expoagro), especialistas ligados à cadeia produtiva destacaram que o caminho para ampliar a oferta de leite no estado passa principalmente pelo aumento da produtividade dentro das áreas já utilizadas pelos produtores.

O desafio é significativo. Além das condições ambientais características da Amazônia, produtores precisam lidar com custos, logística, alimentação dos animais e acesso às tecnologias necessárias para tornar a atividade mais eficiente.

Para José Ribeiro, médico-veterinário e consultor especialista em gestão da qualidade, higiene e tecnologia de leite, o desenvolvimento da atividade no estado já apresenta avanços, principalmente em áreas como pastagem e genética do rebanho.

Atuando há cerca de dez anos com consultoria na região, Ribeiro afirma ter acompanhado essa transformação.

“Já houve evolução no melhoramento da pastagem, na genética do gado e na produção de leite, e isso tem reflexo na indústria”, avaliou.

Segundo ele, o aumento da eficiência produtiva pode diminuir a pressão por novas áreas.

“Melhora a produtividade com a mesma área existente”, destacou.

Produzir mais dentro da mesma área

Essa mesma estratégia aparece no trabalho desenvolvido pelo Sebrae Amazonas junto aos pecuaristas.

O analista de agronegócios do Sebrae Amazonas Erivan Oliveira explica que as ações envolvem diferentes etapas da atividade, começando pela qualidade da pastagem e chegando ao melhoramento genético do rebanho.

A finalidade é conseguir animais com maior potencial de produção de carne e leite, associados a uma alimentação capaz de permitir que esse potencial genético seja efetivamente aproveitado.

“Esse animal com potencial genético maior de produção, tanto de carne quanto de leite, vai possibilitar que o produtor, sem a necessidade de abrir novas áreas, utilize aquela mesma área com alimentação adequada, mas com um animal com potencial de produção melhor do que ele tinha anteriormente”, explicou.

O raciocínio é transformar produtividade em uma alternativa à expansão territorial: produzir mais leite por animal e melhorar a eficiência da propriedade utilizando melhor os recursos disponíveis.

Alimentação precisa acompanhar genética

Investir em animais geneticamente superiores, porém, representa apenas uma parte do processo.

Erivan destaca que a alimentação do rebanho precisa avançar paralelamente. Entre as alternativas trabalhadas estão a produção de silagem de milho e o cultivo de forrageiras como o capiaçu, utilizadas para formar reservas de alimento.

Essa preparação é especialmente importante nos períodos mais críticos do verão amazônico, quando a redução da disponibilidade de pastagens pode comprometer o desempenho dos animais.

Segundo Erivan, houve uma mudança na percepção dos próprios produtores sobre a possibilidade de produzir alimentação suplementar dentro das propriedades.

A adoção dessas técnicas permite formar estoque para atravessar períodos de menor oferta de alimento sem comprometer na mesma proporção a produtividade do rebanho.

Tecnologia e animais adaptados ao clima

Para José Ribeiro, tecnologia precisa ser entendida de maneira ampla. Não se trata apenas de genética, mas também de instalações, manejo, alimentação e organização do sistema produtivo.

“A tecnologia é o que mais influencia. Tecnologia em todos os sentidos, inclusive nas instalações”, afirmou.

Na avaliação do especialista, sistemas mais tecnificados permitem concentrar maior produtividade em áreas menores, desde que exista estrutura suficiente para garantir alimentação e bem-estar aos animais.

Quando o assunto é genética, outro fator se torna fundamental no Amazonas: adaptação às condições ambientais da região.

Ribeiro destaca a utilização de cruzamentos capazes de combinar potencial leiteiro e rusticidade.

“A genética, as tecnologias e o desenvolvimento de cruzamentos já nos permitem ter gado que melhor se adapta à condição ambiental”, explicou.

Ele citou propriedades amazonenses que já investem nesse processo e afirmou que produtores menores também vêm incorporando genética ao rebanho com assistência técnica.

Cadeia não termina na ordenha

O avanço da produção também precisa encontrar estrutura para beneficiamento.

Segundo Erivan Oliveira, o trabalho desenvolvido pelo Sebrae procura enxergar a pecuária como uma cadeia integrada. O processo passa pela pastagem, alimentação e genética, chega à produção de leite e termina na agroindústria, onde a matéria-prima é transformada em produtos comercializáveis.

Durante a Expoagro, o analista informou que seis indústrias de laticínios do Amazonas são apoiadas pelo Sebrae, sendo que cinco estavam presentes na exposição mencionada durante a entrevista.

Para Erivan, mostrar os laticínios ao lado das ações realizadas dentro das propriedades permite visualizar o resultado final do processo de desenvolvimento da pecuária.

O leite produzido a partir de um rebanho mais eficiente deixa a propriedade e segue para beneficiamento, dando origem aos derivados e ampliando as possibilidades de geração de valor dentro da própria cadeia.

Mercado consumidor representa oportunidade

O Amazonas ainda possui um amplo mercado consumidor para ser ocupado pela produção local.

Para Erivan, esse é um dos principais fatores a serem considerados quando se discute o potencial de crescimento da pecuária amazonense.

“Quando se fala em produção e oportunidade de crescimento, a gente tem que olhar para o mercado consumidor. É um mercado gigantesco”, afirmou.

Na avaliação do analista, a entrada de produtos provenientes de outros estados demonstra que existe demanda e, consequentemente, espaço para ampliar a participação da produção amazonense tanto na carne quanto no leite e seus derivados.

José Ribeiro, por outro lado, chama atenção para obstáculos que ainda precisam ser superados para que esse potencial se converta em crescimento efetivo.

Entre eles estão o acesso à tecnologia e condições econômicas que permitam ao produtor competir no mercado.

Para o especialista, políticas que facilitem a tecnificação podem permitir que a atividade avance sem que aumento de produção seja necessariamente associado à ampliação da área utilizada.

“Se você conseguir levar esses recursos para o produtor, nós melhoramos a genética dos animais, o manejo e a produção, mantendo a mesma área ou até diminuindo”, afirmou.

A avaliação converge com o que é apresentado durante a Expoagro: genética de maior desempenho, alimentação planejada e assistência técnica podem permitir que a pecuária leiteira amazonense avance principalmente pela produtividade.

O desafio agora é fazer essas tecnologias chegarem a um número cada vez maior de propriedades e transformar o potencial produtivo em leite, derivados, renda e maior participação da produção local no mercado consumidor do Amazonas.

 

Texto: Beatriz Costa

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