Por Beatriz Costa
O agronegócio brasileiro atravessa um momento delicado, marcado por desafios internos e externos que pressionam produtores, empresas e toda a cadeia produtiva. Juros elevados, restrição de crédito, instabilidade climática, custos de produção e incertezas no mercado internacional compõem um cenário considerado crítico por lideranças do setor.
Apesar das dificuldades, o Brasil segue ocupando posição estratégica na segurança alimentar e energética global. A avaliação é do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) e professor emérito da FGV.
Segundo Rodrigues, o agro brasileiro já enfrentou diversas crises ao longo da história, mas o momento atual apresenta uma combinação mais complexa de fatores. A diferença, segundo ele, está na simultaneidade dos problemas: o setor precisa lidar, ao mesmo tempo, com pressão financeira, riscos climáticos, exigências ambientais, disputas geopolíticas e mudanças no padrão de consumo mundial.
Em análise recente, o FGV Agro apontou que 2026 será um ano desafiador para a agropecuária, especialmente por causa dos juros altos, da escassez de crédito, da falta de previsibilidade na política agrícola e da fragilidade do seguro rural. Esses fatores dificultam investimentos, elevam o custo do custeio das lavouras e aumentam a vulnerabilidade dos produtores diante de eventos climáticos extremos.
Para Roberto Rodrigues, no entanto, a crise também evidencia a importância estratégica do Brasil. O país domina tecnologias de agricultura tropical, possui capacidade de produção em larga escala e tem potencial para ampliar sua presença na oferta de alimentos, fibras e biocombustíveis. Em eventos recentes do setor, o ex-ministro tem defendido que segurança alimentar e segurança energética serão temas centrais para a estabilidade política e social nas próximas décadas.
Outro ponto destacado é a necessidade de planejamento de longo prazo. Para especialistas, o agronegócio brasileiro precisa de políticas públicas mais estáveis, crédito acessível, ampliação do seguro rural, investimentos em infraestrutura logística e maior integração entre produção agropecuária, sustentabilidade e inovação tecnológica.
A crise também exige atenção à competitividade internacional. Com mercados cada vez mais exigentes em relação à rastreabilidade, responsabilidade ambiental e padrões ESG, o Brasil precisa mostrar capacidade de produzir mais, com eficiência e respeito às normas ambientais.
Mesmo diante das dificuldades, Roberto Rodrigues avalia que o agronegócio brasileiro segue sendo uma das principais forças econômicas do país. O desafio, segundo ele, é transformar o potencial produtivo em competitividade sistêmica, garantindo renda ao produtor, segurança ao consumidor e protagonismo internacional ao Brasil.
A expectativa é que os próximos meses sejam decisivos para o setor, especialmente com a definição de novas políticas de crédito, seguro rural e apoio à produção. Para o ex-ministro, superar a crise dependerá de organização, previsibilidade e da capacidade de unir governo, produtores, indústria e sociedade em torno de uma estratégia nacional para o agro.

