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Europa muda estratégia diante de eventos climáticos extremos e aposta mais em prevenção

União Europeia pretende ampliar investimentos em prevenção e preparação após um verão marcado por grandes incêndios e sucessivas ondas de calor. Foto: AP Photo/Divulgação.

Após verão marcado por incêndios e ondas de calor, União Europeia quer antecipar riscos e reforçar proteção civil, mas enfrenta disputa por recursos para financiar adaptação climática

A União Europeia quer mudar a forma como enfrenta incêndios florestais, enchentes e outros eventos climáticos extremos. Depois de anos em que grande parte dos esforços esteve concentrada na resposta às emergências, a Comissão Europeia pretende ampliar os investimentos em prevenção, preparação e antecipação de riscos.

A mudança ocorre diante de um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes e simultâneos no continente. Somente em 2026, mais de 600 mil hectares foram atingidos por incêndios na União Europeia, área superior ao dobro da média registrada nas últimas duas décadas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou nesta segunda-feira (31) que os sistemas de proteção civil precisam se adaptar a uma realidade na qual diferentes emergências podem ocorrer ao mesmo tempo e ultrapassar a capacidade individual de resposta dos países.

Durante o verão europeu, marcado por sucessivas ondas de calor e grandes incêndios, equipes de diferentes países precisaram atuar de forma conjunta para controlar as ocorrências.

Incêndios pressionaram sistemas de emergência

Desde abril, o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia foi acionado dez vezes especificamente para incêndios florestais.

Quase 800 bombeiros foram posicionados antecipadamente em regiões consideradas de maior risco, enquanto equipes de 25 países foram mobilizadas ao longo do verão.

Segundo a Comissão Europeia, aproximadamente 300 mil pessoas tiveram de ser evacuadas por causa dos incêndios.

A Europa também enfrentou quatro ondas de calor desde maio, aumentando a pressão sobre os serviços nacionais de emergência e reforçando a preocupação com a capacidade de diferentes países responderem simultaneamente a grandes desastres.

A avaliação da Comissão é de que as mudanças climáticas estão modificando não apenas a frequência, mas também a intensidade e a simultaneidade das emergências.

Prevenir em vez de apenas reconstruir

A mudança de estratégia parte de uma constatação econômica: responder aos danos depois que uma catástrofe acontece pode custar mais do que investir antecipadamente para reduzir seus impactos.

O comissário europeu para a Ação Climática, Wopke Hoekstra, defende que a Europa precisa aumentar os investimentos antes da ocorrência dos desastres.

A ideia envolve preparar cidades e infraestruturas para condições climáticas mais severas, em vez de simplesmente reconstruí-las seguindo os mesmos padrões depois de uma enchente, incêndio ou outro evento extremo.

Uma ponte destruída por uma inundação, por exemplo, poderia ser reconstruída levando em consideração o risco de novas cheias.

A mesma lógica pode ser aplicada ao planejamento urbano, à gestão das florestas, às redes de energia e aos sistemas de proteção civil.

Prevenção também chega ao combate aos incêndios

Os incêndios florestais estão entre as áreas em que essa mudança já começa a aparecer.

Em março de 2026, a Comissão Europeia lançou uma estratégia de gestão integrada do risco de incêndios baseada em quatro pilares: prevenção, preparação, resposta e recuperação.

A prevenção passou a ocupar posição central.

Entre as medidas estão redução do material combustível acumulado nas florestas, criação de faixas de proteção, desbaste florestal, pastoreio direcionado e recuperação de paisagens vulneráveis ao fogo.

A União Europeia também pretende ampliar sistemas de monitoramento e alerta precoce por satélite.

O objetivo não é abandonar os investimentos em equipamentos de combate. O sistema europeu rescEU deverá incorporar novos aviões e helicópteros especializados. A estratégia, porém, busca evitar que a expansão da capacidade de resposta seja a única solução para incêndios cada vez maiores.

Dinheiro é um dos principais obstáculos

Transformar a prevenção em política permanente exige recursos — e esse é um dos principais pontos de tensão dentro da União Europeia.

Os governos europeus negociam o próximo orçamento plurianual do bloco em um cenário de pressão para contenção dos gastos públicos.

Países como Alemanha, Áustria, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos e Suécia defendem reduções na proposta orçamentária, enquanto a Comissão argumenta que os investimentos em adaptação podem evitar despesas muito maiores no futuro.

O próximo orçamento europeu prevê instrumentos específicos para preparação e gestão de crises.

A proposta da Comissão para o período de 2028 a 2034 inclui 10,7 bilhões de euros em financiamento comum para proteção civil e preparação para emergências de saúde, além de instrumentos financeiros que poderão ser utilizados pelos países diante de grandes crises.

Cerca de 35% do próximo orçamento plurianual proposto pela Comissão deverá ser destinado a clima e meio ambiente.

Ainda assim, boa parte dos investimentos necessários para tornar cidades, infraestruturas e territórios mais resistentes continuará dependendo dos governos nacionais e regionais.

Europa precisa se preparar para crises simultâneas

A estratégia também está deixando de considerar apenas desastres naturais isoladamente.

O planejamento europeu começa a trabalhar com a possibilidade de diferentes crises acontecerem ao mesmo tempo.

Incêndios, enchentes e ondas de calor podem coincidir com ataques cibernéticos, interrupções no fornecimento de energia, sabotagens contra infraestruturas críticas ou emergências sanitárias.

Isso exige sistemas capazes não apenas de responder rapidamente, mas de continuar funcionando quando diferentes setores são pressionados simultaneamente.

A chamada União de Preparação europeia busca justamente aumentar essa capacidade de resistência.

Entre as propostas está fortalecer sistemas de alerta, reservas estratégicas, coordenação entre os países e preparação da própria população para situações de emergência.

Mudança climática aumenta custo da inação

Por trás da discussão orçamentária existe uma questão econômica cada vez mais relevante.

Eventos climáticos extremos destroem infraestrutura, interrompem atividades produtivas, afetam agricultura e turismo, aumentam gastos com saúde e exigem recursos públicos para reconstrução.

Estimativas mencionadas pelo comissário Wopke Hoekstra apontam que os prejuízos econômicos provocados pelos eventos extremos do verão europeu podem alcançar dezenas de bilhões de euros.

Nesse cenário, adaptação climática deixa de ser tratada exclusivamente como uma política ambiental e passa a integrar o planejamento econômico e de infraestrutura.

A lógica defendida pela Comissão é simples: quanto maior a capacidade de antecipar os riscos, menor tende a ser o custo humano e financeiro depois da catástrofe.

O desafio agora será transformar essa estratégia em investimentos permanentes justamente em um momento no qual vários países europeus pressionam pela redução dos gastos comunitários.

Com incêndios, ondas de calor e outros eventos extremos se tornando mais frequentes, a discussão europeia deixa uma questão que ultrapassa as fronteiras do continente: diante de um clima em transformação, governos terão de decidir quanto investir antes dos desastres — ou quanto estarão dispostos a gastar depois deles.

Fontes: Comissão Europeia e Euronews.

 

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