Por Beatriz Costa, editora-chefe
Estudo Nacional projeta R$ 434 bilhões em investimentos até 2054 e promete reduzir desigualdades, emissões e mortes no trânsito nas grandes metrópoles brasileiras
O Brasil vive um momento decisivo no planejamento da mobilidade urbana. Com o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), conduzido pelo BNDES e pelo Ministério das Cidades, o país passa a ter um mapeamento inédito dos principais gargalos e oportunidades para modernizar o transporte público coletivo nas 21 maiores regiões metropolitanas.
Segundo o engenheiro Manoel Paiva, especialista em mobilidade urbana, o estudo representa um avanço histórico para o setor. “Pela primeira vez, temos um diagnóstico amplo, com 187 projetos voltados à expansão e modernização do transporte coletivo de média e alta capacidade. O ENMU coloca em evidência a necessidade de uma política nacional de mobilidade urbana sólida, integrada e sustentável”, destaca.
Um plano para transformar o transporte até 2054
Com R$ 434 bilhões em investimentos previstos até 2054, o ENMU pretende não apenas melhorar o transporte coletivo, mas também reduzir impactos ambientais e sociais. A meta é ousada: diminuir em 8 mil o número de mortes em acidentes de trânsito, além de cortar 3 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
“O estudo aponta que, com a implantação das propostas, o país poderá reduzir o custo da mobilidade urbana em cerca de 10% e melhorar significativamente o acesso da população a empregos, escolas, hospitais e serviços essenciais”, explica Paiva.
As projeções indicam também um impacto econômico de mais de R$ 200 bilhões, com redes mais eficientes e menos tempo perdido em deslocamentos. Para o engenheiro, “a mobilidade urbana precisa ser tratada como política de inclusão social, o transporte coletivo é um instrumento de cidadania que integra toda a cidade de forma barata, segura e confiável”.
Financiamento e inspiração internacional
Um dos grandes desafios do ENMU é a viabilização financeira de seus projetos. O estudo detalha a necessidade de recursos para diferentes modais: R$ 230 bilhões para metrôs, R$ 31 bilhões para trens urbanos, R$ 105 bilhões para VLTs, R$ 80 bilhões para BRTs e R$ 3,4 bilhões para corredores exclusivos de ônibus.
No caso de Manaus, estão previstos R$ 2,851 bilhões para implantação de um sistema BRT elétrico de 47,9 km, com obras de infraestrutura viária, plataformas de embarque, novas vias e aquisição de frota de alta capacidade.
O financiamento, segundo Paiva, deverá seguir o modelo de parcerias público-privadas (PPPs), com fundos garantidores e atração de investimentos privados. Ele cita o TransMilenio de Bogotá como referência mundial: “O sistema colombiano é um exemplo de sustentabilidade financeira. Lá, metade da arrecadação da sobretaxa sobre combustíveis fósseis foi destinada ao BRT, garantindo a operação e a expansão do transporte público”.
O engenheiro explica que o Brasil já segue esse caminho com o BNDES financiando frotas elétricas em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Belém. “É um avanço importante, mas precisamos de um modelo estável, com segurança jurídica e previsibilidade para investidores”, ressalta.

Impactos sociais e ambientais positivos
Os ganhos esperados com a implementação dos projetos são amplos. Além da redução de emissões e mortes, o estudo estima a diminuição de 12% no tempo médio de deslocamento nas metrópoles e melhoria da qualidade de vida para milhões de brasileiros.
“O ENMU vai permitir que as cidades cresçam de forma mais justa e equilibrada”, afirma Paiva. “A mobilidade urbana sustentável reduz desigualdades, fortalece a economia e protege vidas. É uma política pública que conecta pessoas, oportunidades e direitos.”
Para ele, investir em transporte coletivo é investir em equidade urbana. “Enquanto o automóvel beneficia o indivíduo, o transporte público beneficia a coletividade. Ele representa a democratização do espaço urbano e a redução da exclusão social, especialmente nas áreas periféricas.”
Governança e integração: o desafio das metrópoles
O estudo também traz um alerta sobre a falta de governança metropolitana e a fragmentação das políticas públicas. Muitas regiões carecem de instâncias formais de coordenação entre municípios e estados, o que prejudica a eficiência dos sistemas.
Em Manaus, essa carência é evidente. “A estrutura de gerenciamento do transporte metropolitano precisa ser atualizada, com legislação moderna e integração plena entre os modais, rodoviário urbano, intermunicipal e aquaviário”, explica Paiva.
Ele defende que o sistema tarifário e físico integrado é essencial para atrair novos usuários. “Terminais intermodais bem planejados e bilhetes únicos reduzem custos e tempo de espera, tornando o transporte coletivo mais competitivo frente ao carro particular”, aponta.
Hoje, Manaus possui integração tarifária apenas no sistema convencional de ônibus urbanos. “É urgente ampliar para o transporte executivo, alternativo e intermunicipal, além de planejar a integração futura com o transporte aquaviário, via Terminal Hidroviário da Manaus Moderna”, sugere.
Entraves e o legado para as próximas gerações
Para que o ENMU saia do papel, Manoel Paiva afirma que será preciso superar entraves institucionais e jurídicos. “É necessário fortalecer o arcabouço legal e fiscal que permita a criação de fundos garantidores, concessões e seguros de performance. Sem segurança jurídica, não há investimento privado possível.”
O engenheiro defende que o Amazonas e seus municípios atualizem suas legislações, incluindo o Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob) e a Lei Orgânica de Manaus, para atrair parceiros e investidores. “O projeto atual atende apenas 32,7% da demanda de transporte coletivo de Manaus. Precisamos expandir o sistema e garantir que ele chegue às populações periféricas e de menor renda”, alerta.
Para Paiva, o legado do ENMU vai muito além das obras físicas. “Estamos falando de reorientar o conceito de cidade. Manaus, por exemplo, ainda é altamente dependente dos ônibus, cerca de 40% da população depende exclusivamente desse modal e carece de infraestrutura sobre trilhos, ciclovias e calçadas adequadas.”
Ele lembra que a dependência do automóvel (quase 29% da população) e o uso crescente de motocicletas criam congestionamentos e riscos de acidentes. “A motocicleta é sintoma da ausência de alternativas seguras. É preciso garantir que o transporte coletivo volte a ser a espinha dorsal da mobilidade urbana”, afirma.
Um futuro de inclusão e sustentabilidade
Para o engenheiro, o ENMU é uma oportunidade de “virar a chave” da mobilidade brasileira. “Precisamos mudar o foco de cidades planejadas para carros para cidades projetadas para pessoas. O legado do ENMU será essa mudança de prioridade: colocar no centro da política pública aqueles que mais precisam ser transportados com dignidade, respeito e inclusão.”
Manoel Paiva acredita que o Brasil tem condições de atingir as metas propostas até 2054. “Se houver vontade política, cooperação institucional e engajamento social, poderemos reduzir as mortes no trânsito, ampliar o acesso à mobilidade e transformar nossas metrópoles em espaços mais humanos e sustentáveis.”