Plano estratégico apresentado ao governo projeta bilhões em investimentos para modernizar a defesa brasileira diante de novas ameaças tecnológicas, enquanto militares apontam lacunas críticas em drones, mísseis e defesa antiaérea que podem redefinir o futuro da segurança nacional.
A transformação silenciosa das guerras modernas tem mudado profundamente a forma como os países pensam sua própria segurança.
Nos últimos anos, conflitos recentes revelaram um novo cenário em que drones baratos, inteligência artificial e ataques coordenados podem superar defesas tradicionais em questão de minutos.
Nesse ambiente estratégico cada vez mais imprevisível, governos e Forças Armadas ao redor do mundo passaram a revisar seus sistemas de defesa para lidar com ameaças tecnológicas que até poucos anos atrás pareciam distantes.
Foi nesse contexto que o Exército Brasileiro apresentou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um plano estratégico que prevê investimentos de cerca de R$ 456 bilhões para modernizar a capacidade de defesa do país nas próximas décadas.
Segundo informações divulgadas pelo jornal Estadão, o projeto busca preparar o Brasil para enfrentar ameaças emergentes no cenário geopolítico global, especialmente aquelas ligadas ao uso massivo de drones, inteligência artificial e sistemas de ataque de alta precisão.
O documento indica que, hoje, o país ainda não possui capacidade plena para se defender de um grande ataque com enxames de drones, tecnologia que já tem sido usada em conflitos recentes.
Plano redefine prioridades da defesa terrestre
Para enfrentar esse novo cenário, o Exército decidiu reorganizar suas prioridades estratégicas.
De acordo com dados obtidos pelo Estadão, o portfólio de projetos estratégicos da Força Terrestre foi reduzido de 14 para sete programas considerados essenciais para o futuro da defesa nacional.
Esses programas concentrariam os principais investimentos entre 2026 e 2040, período considerado crucial para a modernização das capacidades militares brasileiras.
Do total estimado de R$ 456 bilhões, cerca de um terço seria destinado a investimentos diretos em equipamentos, sistemas e tecnologias, enquanto os dois terços restantes estariam ligados a custos operacionais e de manutenção ao longo do tempo.
Entre os principais projetos está a criação de uma nova capacidade de defesa antiaérea de média altura, algo que atualmente não existe no Exército Brasileiro.
Segundo o planejamento militar, essa lacuna representa um dos pontos mais sensíveis da defesa nacional diante do avanço das ameaças aéreas modernas.
Novo sistema antiaéreo e cooperação internacional
Dentro desse esforço, o Exército prevê a criação de três grupos de artilharia antiaérea, cada um equipado com três baterias especializadas para interceptar aeronaves, mísseis e drones hostis.
No final de 2025, o Brasil deu um primeiro passo nessa direção ao iniciar negociações com o governo da Itália para adquirir um sistema de defesa aérea moderno.
O acordo inicial prevê a compra de duas baterias ao custo aproximado de R$ 3,7 bilhões, que deverão equipar o antigo 12º Grupo de Artilharia de Campanha, em Jundiaí (SP).
O sistema em análise é o EMADS (Enhanced Modular Air Defence Solutions), desenvolvido pela multinacional europeia MBDA, que permite integrar radares e sensores de diferentes origens, inclusive equipamentos produzidos no Brasil.
Esse sistema utiliza os mísseis CAMM-ER, os mesmos que equiparão as futuras fragatas da Classe Tamandaré, atualmente em construção para a Marinha do Brasil.
Segundo o planejamento militar, a implementação completa dessa capacidade poderá envolver mais de 500 mísseis antiaéreos, com investimento total estimado em até R$ 90 bilhões ao longo das próximas décadas, considerando aquisição, operação e manutenção.
Drones se tornam prioridade estratégica
Outro eixo central do plano é o fortalecimento das capacidades brasileiras no uso de drones militares, considerados hoje um elemento decisivo no campo de batalha.
De acordo com o Estado-Maior do Exército, a atual escassez desse tipo de equipamento na Força Terrestre passou a ser tratada como uma emergência estratégica.
Para reduzir essa lacuna, o plano prevê duas linhas de ação simultâneas.
A primeira envolve a aquisição de drones prontos, tanto nacionais quanto estrangeiros, capazes de entrar em operação rapidamente.
A segunda aposta no desenvolvimento tecnológico dentro do país, buscando garantir autonomia estratégica para o Brasil no futuro.
Segundo informações obtidas pelo Estadão, cerca de 26 empresas com capacidade de fabricar drones militares já apresentaram propostas ao Exército, incluindo sistemas de diferentes categorias, desde drones de vigilância até modelos armados.
Nos sistemas mais simples, classificados como tipos 0 e 1, a indústria brasileira já possui capacidade de fornecimento imediato.
O investimento inicial estimado nessa área seria de cerca de R$ 3,7 bilhões, podendo chegar a aproximadamente R$ 10 bilhões até 2040 considerando toda a estrutura de operação e manutenção.
Mísseis nacionais e modernização das forças blindadas
O plano estratégico também prevê a retomada de projetos ligados à indústria nacional de defesa.
Entre eles está o míssil tático de cruzeiro desenvolvido pela Avibras, que poderá ter alcance superior a 300 quilômetros.
Segundo dados do Escritório de Projetos do Exército (EPEx), cerca de 90% do desenvolvimento desse armamento já está concluído, faltando apenas a fase final de testes e disparos experimentais.
Além disso, a Força Terrestre trabalha no desenvolvimento do Míssil Tático Balístico S+100, que aproveita conhecimentos acumulados em projetos anteriores da indústria brasileira.
Outro ponto importante do plano envolve a modernização das forças blindadas, que deverão receber novos sistemas de proteção contra drones e integração com tecnologias de inteligência artificial aplicada ao combate.
Esse processo poderá consumir cerca de R$ 90 bilhões em investimentos ao longo das próximas décadas.
Também estão previstos cerca de R$ 20 bilhões adicionais para fortalecer a defesa cibernética e o desenvolvimento de inteligência artificial militar.
Defesa multidomínio e novos desafios estratégicos
O plano apresentado ao presidente Lula segue a lógica da chamada guerra multidomínio, conceito que envolve a integração de diferentes áreas do campo de batalha — terrestre, aéreo, marítimo, cibernético e espacial.
Nesse modelo, proteger infraestruturas críticas e garantir o comando e controle das forças torna-se tão importante quanto possuir armamentos convencionais.
Segundo generais ouvidos pelo Estadão, o Brasil precisa desenvolver meios não apenas para reagir a um ataque, mas também para negar vantagens estratégicas a possíveis adversários desde os primeiros momentos de um conflito.
Parte dos recursos necessários poderá vir da Lei Complementar 221, que autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em gastos com projetos estratégicos de defesa do limite fiscal até 2031.
Mesmo assim, especialistas destacam que o plano ainda dependerá de decisões políticas e disponibilidade orçamentária nos próximos anos.
Hoje, o Brasil destina cerca de 1,1% do PIB para gastos com defesa, percentual inferior ao observado em diversas economias globais que vêm ampliando seus investimentos militares.
Para os defensores da proposta, modernizar as capacidades militares tornou-se uma necessidade diante das mudanças aceleradas no cenário internacional.
Segundo militares envolvidos no planejamento, a intenção é garantir que o Brasil esteja preparado para enfrentar as novas formas de conflito que estão surgindo na era dos drones e da guerra tecnológica.
Fonte: Sociedade Militar

