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Crise no Estreito de Hormuz ameaça abastecimento de fertilizantes e acende alerta no agronegócio brasileiro

FAO alerta para riscos à produção agrícola e à segurança alimentar global. Dependência brasileira de insumos importados amplia a preocupação com custos, safras e abastecimento.

 

O agronegócio brasileiro enfrenta um cenário de incerteza diante das restrições ao transporte marítimo no Estreito de Hormuz, uma das principais rotas estratégicas do comércio internacional. A escalada das tensões no Oriente Médio e os ataques registrados na região interromperam parte significativa do fluxo de fertilizantes, levantando preocupações sobre o abastecimento e os custos de produção agrícola.

 

Relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que o problema vai além do mercado de energia. A interrupção das rotas comerciais afeta diretamente a distribuição de insumos essenciais para a agricultura, com possíveis consequências para a produtividade das lavouras e para os preços dos alimentos. Em avaliação divulgada em março de 2026, a organização destacou que até 30% do comércio internacional de fertilizantes passa pela região.

 

Ureia e amônia no centro da preocupação

 

A ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados no mundo, está entre os produtos mais expostos à crise. Antes do conflito, aproximadamente um terço da ureia comercializada internacionalmente era transportado pelo Estreito de Hormuz. A região também é importante para o fornecimento de enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.

 

A amônia, igualmente estratégica para a produção de fertilizantes nitrogenados, também sofre os efeitos das dificuldades logísticas e das oscilações no mercado de gás natural, matéria-prima fundamental para sua fabricação.

 

Em outubro, autoridades das Nações Unidas voltaram a alertar para o risco de uma crise alimentar em regiões vulneráveis da Ásia e da África caso as restrições persistam. A proposta discutida no âmbito da ONU prevê um mecanismo de coordenação para facilitar a passagem segura de embarcações transportando fertilizantes pelo estreito. A iniciativa, contudo, depende de entendimentos diplomáticos entre Estados Unidos e Irã.

 

Brasil tem elevada dependência de importações

 

A situação preocupa especialmente o Brasil, cuja produção agrícola depende amplamente de fertilizantes adquiridos no exterior. Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) repercutidos pela CNN Brasil, entre 80% e 90% dos fertilizantes utilizados no país são importados.

 

Essa dependência expõe produtores rurais às variações cambiais, aos custos de frete, às restrições comerciais e às crises geopolíticas que afetam os principais fornecedores.

 

Em março, a Reuters informou que o Brasil havia importado um volume recorde de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025. Naquele período, a ureia entregue no mercado brasileiro registrou alta de aproximadamente 35% em duas semanas, de acordo com dados citados pela consultoria StoneX.

 

O aumento dos custos pode comprometer as margens dos produtores, especialmente quando os preços de venda de grãos e outras commodities não acompanham a elevação dos insumos. Diante desse cenário, agricultores e importadores avaliam alternativas, incluindo fertilizantes nitrogenados de menor custo, embora a substituição dependa das necessidades de cada cultura e das recomendações agronômicas.

 

Plano Nacional de Fertilizantes ganha relevância estratégica

 

A crise internacional reforça a importância do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), criado para reduzir a dependência externa brasileira e estimular o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional.

 

O plano, estabelecido em 2022 e estruturado para orientar ações até 2050, prevê a modernização e a ampliação de unidades industriais, a atração de investimentos, o desenvolvimento tecnológico, a melhoria da infraestrutura logística e o incentivo a novas fontes de nutrientes para a agricultura.

 

Em setembro de 2026, o Brasil também sancionou a Lei nº 15.496, que instituiu o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). A iniciativa busca estimular a produção nacional e diminuir a exposição do país às oscilações do mercado externo. A legislação prevê, entre outras medidas, a implantação gradual de percentuais de mistura obrigatória de fertilizantes nacionais, com início previsto para julho de 2027.

 

Impactos podem chegar ao consumidor

 

A elevação dos custos dos fertilizantes pode repercutir em diferentes etapas da cadeia produtiva. Quando o produtor paga mais pelos insumos, pode reduzir a aplicação, adiar compras ou rever investimentos. Se a disponibilidade de nutrientes diminuir em fases decisivas do ciclo agrícola, a produtividade das lavouras poderá ser afetada.

 

Esses efeitos não são automáticos nem iguais para todas as culturas. Estoques disponíveis, contratos firmados anteriormente, alternativas de fornecimento, condições climáticas e preços internacionais também influenciam os resultados.

 

Ainda assim, a FAO alerta que interrupções prolongadas podem afetar as próximas safras e aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos, especialmente em países mais dependentes de importações e com menor capacidade financeira para absorver aumentos de custos.

 

Diversificação e produção nacional são desafios de longo prazo

 

Especialistas e organismos internacionais defendem a diversificação dos fornecedores, a criação de rotas comerciais alternativas e o fortalecimento da capacidade produtiva nacional como medidas para reduzir a vulnerabilidade do setor.

 

No Brasil, ampliar a fabricação doméstica de fertilizantes exige investimentos, infraestrutura, acesso competitivo a matérias-primas, previsibilidade regulatória e prazos compatíveis com a implantação de projetos industriais. O desenvolvimento de bioinsumos e tecnologias que aumentem a eficiência no uso de nutrientes também pode contribuir para reduzir riscos, embora não substitua de imediato toda a demanda por fertilizantes convencionais.

 

Enquanto persistirem as tensões no Oriente Médio, o comportamento dos fretes, dos preços internacionais e da disponibilidade de insumos seguirá no radar de produtores, cooperativas, importadores e autoridades públicas.

 

O desafio brasileiro será proteger a capacidade de produção agrícola no curto prazo e, simultaneamente, transformar a crise em incentivo para reduzir a dependência externa. A evolução do conflito e a retomada do transporte pelo Estreito de Hormuz serão determinantes para a normalização do mercado, mas a redução estrutural da vulnerabilidade exigirá planejamento e investimentos contínuos.

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