Site icon Agro Floresta Amazônia – Principais Notícias do Agro!

Conflito no Oriente Médio encarece fretes, fertilizantes e aumenta pressão sobre o agronegócio brasileiro

Alta do petróleo, riscos às rotas marítimas e dependência brasileira de insumos importados elevam custos de produção e logística e ameaçam reduzir as margens dos produtores

O agravamento dos conflitos no Oriente Médio adicionou uma nova pressão sobre o agronegócio brasileiro. Mesmo diante da força da produção e das exportações, produtores enfrentam um cenário de custos elevados, marcado pela volatilidade do petróleo, encarecimento dos fertilizantes, fretes mais caros e maior risco nas operações logísticas internacionais.

A instabilidade atinge uma das principais vulnerabilidades do agro brasileiro: a dependência de insumos provenientes do exterior. Fertilizantes utilizados nas lavouras percorrem milhares de quilômetros até chegar às propriedades rurais, tornando o custo de produção particularmente sensível a conflitos que afetem rotas marítimas, combustíveis e grandes países fornecedores.

Levantamento divulgado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostra que os efeitos já apareceram na conta das importações. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil importou 7,4 milhões de toneladas de fertilizantes nitrogenados e fosfatados, contra 7,7 milhões no mesmo período do ano anterior.

Apesar da redução de aproximadamente 4% no volume, o valor desembolsado pelo país aumentou 16%, reflexo da valorização dos produtos e dos custos logísticos associados ao conflito.

Petróleo espalha pressão por toda a cadeia

Um dos principais canais de transmissão da crise é o petróleo.

A redução da oferta internacional e as incertezas geopolíticas levaram as cotações a patamares elevados. No início de setembro, o petróleo superou US$ 101 por barril, segundo análise divulgada pelo Canal Rural.

Para o campo, o impacto vai além do combustível utilizado em tratores e colheitadeiras. O petróleo interfere nos custos do transporte rodoviário, frete marítimo, produção de determinados insumos e diferentes etapas da cadeia logística.

Quanto mais tempo a instabilidade persistir, maior é o risco de esses custos serem incorporados às despesas da próxima safra.

O economista Miguel Daoud avalia que o agronegócio sofre efeitos diretos e indiretos do conflito. Entre eles estão justamente o aumento dos custos dos insumos importados e a elevação das despesas com frete, seguros e logística.

O cenário torna-se ainda mais delicado porque parte dos produtores chega à safra com margens pressionadas, crédito mais caro e níveis elevados de endividamento.

Fertilizantes expõem dependência brasileira

Os fertilizantes estão entre os pontos de maior atenção.

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram a dimensão da exposição brasileira ao mercado internacional. Em 2025, o país internalizou aproximadamente 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, diante de um consumo nacional estimado em 51,7 milhões de toneladas.

A elevada dependência externa faz com que qualquer interrupção na produção internacional ou nas rotas de transporte tenha potencial para repercutir rapidamente no campo brasileiro.

As tensões no Oriente Médio já provocaram instabilidade em produtos como ureia e nitrato de amônio, além de preocupações relacionadas à produção de nitrogenados e à circulação de navios.

O mercado apresentou algum alívio nos últimos meses. Entre maio e agosto, por exemplo, houve recuo expressivo em determinados fertilizantes, favorecido pela menor demanda brasileira e por mudanças na oferta internacional.

Isso, porém, não eliminou o risco geopolítico.

A própria CNA alertou em agosto que a retomada das tensões no Oriente Médio voltou a pressionar principalmente os fertilizantes nitrogenados, justamente quando aumenta a demanda brasileira para as compras do segundo semestre.

Estreito de Ormuz permanece no radar

Outro ponto estratégico é o Estreito de Ormuz, passagem marítima fundamental para o comércio mundial de petróleo, gás e outros produtos.

Qualquer restrição relevante à navegação pela região pode produzir efeitos que ultrapassam o mercado energético. Para o Brasil, existe preocupação também com o transporte de fertilizantes e com as exportações agropecuárias destinadas ao Oriente Médio.

O país chegou a estruturar uma rota alternativa por meio da Turquia para permitir o trânsito de produtos agropecuários brasileiros sem depender diretamente da passagem pelo Golfo Pérsico.

A alternativa reduz o risco de interrupção das exportações, mas acrescenta etapas ao transporte e pode aumentar despesas com frete e seguro.

Para commodities agrícolas, negociadas em grandes volumes e frequentemente com margens estreitas, aumentos logísticos podem reduzir parte da vantagem obtida com preços internacionais mais elevados.

Frete mais caro reduz margem do produtor

A logística interna também merece atenção.

O Brasil depende fortemente do transporte rodoviário para levar insumos às propriedades e transportar grãos, carnes e outros produtos até portos e centros consumidores. Dessa forma, alterações nos preços dos combustíveis atingem diferentes etapas da cadeia.

Dados da Conab mostram que, em junho, os preços dos fretes agrícolas permaneciam acima dos registrados no mesmo período de 2025 em importantes rotas monitoradas, embora alguns corredores tenham apresentado redução na comparação mensal.

O comportamento varia conforme região, demanda por caminhões, movimentação das safras, preço dos combustíveis e condições de exportação.

Para o produtor, entretanto, a soma de fertilizantes, combustível, transporte e crédito mais caros significa maior necessidade de planejamento para preservar a rentabilidade.

Agro pode exportar mais e, ainda assim, enfrentar custos maiores

A conjuntura cria um paradoxo para o agronegócio brasileiro.

Instabilidades internacionais podem elevar as cotações de determinadas commodities e favorecer as receitas das exportações. Ao mesmo tempo, a mesma crise aumenta o preço dos insumos necessários para produzir e transportar essas mercadorias.

O Brasil também pode obter ganhos comerciais com a valorização de produtos como petróleo e minérios, ajudando o desempenho da balança comercial. Isso não significa, porém, que os efeitos sejam positivos para todos os setores da economia.

No campo, o resultado dependerá da capacidade de cada cadeia produtiva de absorver ou repassar os novos custos.

Produtores que precisam comprar fertilizantes em períodos de preços elevados, contratar crédito caro e percorrer longas distâncias até os portos tendem a ficar mais expostos.

Safra 2026/27 exige cautela

Com o avanço do planejamento da safra 2026/27, o comportamento do Oriente Médio continuará no radar do produtor brasileiro.

A evolução do conflito pode influenciar simultaneamente petróleo, fertilizantes, câmbio, fretes marítimos e seguros. Por isso, decisões relacionadas ao momento de compra dos insumos e à comercialização da produção ganharam ainda mais peso.

A melhora recente das cotações de alguns fertilizantes criou oportunidades para aquisições, mas especialistas alertam que a volatilidade permanece elevada.

O cenário evidencia que uma safra volumosa ou exportações fortes não garantem, isoladamente, maior rentabilidade. O resultado financeiro do produtor dependerá também do comportamento dos custos, e uma parcela importante deles está sendo determinada a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras.

Exit mobile version