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Clima ganha espaço na agenda econômica dos presidenciáveis e chega ao agro nas eleições de 2026

Planos de governo incorporam propostas para remunerar conservação ambiental, estimular a bioeconomia e ampliar energias renováveis, mas apresentam diferenças sobre desmatamento, petróleo e papel do Estado

A agenda climática ganhou espaço nas propostas econômicas dos candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026. Temas antes concentrados principalmente no debate ambiental passaram a aparecer associados ao desenvolvimento, agronegócio, energia, atração de investimentos e inserção do Brasil na economia de baixo carbono.

Uma análise publicada nesta terça-feira (22) pelo Reset comparou os programas de governo de Augusto Cury, Flávio Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Renan Santos e Ronaldo Caiado, os cinco candidatos mais bem colocados nas pesquisas consideradas pela publicação.

Os programas apresentam abordagens diferentes, mas compartilham a tentativa de transformar características ambientais e energéticas do Brasil em instrumentos econômicos. Florestas, produção agropecuária, mercado de carbono, minerais estratégicos, biocombustíveis e fontes renováveis aparecem com diferentes níveis de prioridade.

Conservação ambiental chega à renda do produtor

Uma das propostas que mais aproxima a pauta climática do campo é o Pagamento por Serviços Ambientais, conhecido como PSA.

O mecanismo permite remunerar produtores rurais, comunidades tradicionais e outros agentes pela conservação ambiental. A Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais foi regulamentada neste ano e, pelas regras atuais, a remuneração alcança a preservação realizada além das obrigações estabelecidas pelo Código Florestal.

O tema aparece nos programas de quatro dos cinco candidatos analisados. A exceção é Renan Santos. Apesar da presença do mecanismo nos demais planos, existem diferenças sobre sua abrangência e a forma de aplicação.

Lula propõe aprimorar o PSA com atenção à biodiversidade e incluir o reconhecimento da chamada restauração biocultural. Flávio Bolsonaro defende ampliar a remuneração para produtores que conservam vegetação nativa, recuperam áreas degradadas e protegem recursos hídricos.

Augusto Cury apresenta mecanismos semelhantes, enquanto Ronaldo Caiado propõe pagamentos por serviços ecológicos em maior escala e com contratos simplificados.

A possibilidade de remunerar produtores que mantêm vegetação dentro da reserva legal aparece como um dos pontos relevantes da discussão. Atualmente, a conservação dessa parcela da propriedade integra as obrigações previstas na legislação ambiental.

Agro aproxima produção e sustentabilidade

As propostas para a agropecuária mostram que a relação entre produção e conservação ambiental também entrou no debate eleitoral.

O plano de Lula prevê continuidade de políticas relacionadas à agroecologia, produção orgânica, recuperação de pastagens degradadas e rastreabilidade dos rebanhos.

Flávio Bolsonaro também propõe ampliar a rastreabilidade, com foco em produtores regularizados. Caiado apresenta a integração entre produção de alimentos, biotecnologia e bioenergia e propõe a criação de um Selo Brasil Sustentável para fortalecer a imagem dos produtos brasileiros no mercado internacional.

A adaptação da agricultura às mudanças climáticas também aparece nos programas. Irrigação e seguro rural estão entre os instrumentos mencionados para reduzir a vulnerabilidade da produção diante de secas, excesso de chuvas e outros eventos extremos.

As propostas ganham relevância em um momento no qual alterações no regime de chuvas, temperaturas elevadas e fenômenos climáticos mais intensos afetam decisões sobre plantio, produtividade e custos no campo.

Bioeconomia aparece em quatro programas

A bioeconomia também conquistou espaço entre as propostas presidenciais. Quatro dos cinco planos analisados apresentam medidas relacionadas ao desenvolvimento de atividades econômicas baseadas no uso sustentável dos recursos naturais.

O tema tem importância particular para a Amazônia, onde cadeias produtivas ligadas à biodiversidade são apresentadas como alternativas para combinar geração de renda, desenvolvimento regional e conservação da floresta.

A discussão envolve desde produtos florestais e conhecimentos associados à biodiversidade até biotecnologia, inovação, financiamento e criação de mercados capazes de aumentar o valor agregado da produção.

Os programas, entretanto, apresentam diferentes graus de detalhamento sobre a forma como essas atividades seriam financiadas e implementadas.

Desmatamento expõe diferenças entre candidatos

Se há aproximação em torno de alguns instrumentos econômicos ambientais, o tratamento dado ao desmatamento revela diferenças importantes.

Lula apresenta como objetivo zerar o desmatamento líquido. Os demais candidatos analisados concentram suas propostas no combate ao desmatamento ilegal, preservando a possibilidade de supressão de vegetação autorizada pela legislação.

Flávio Bolsonaro enfatiza o combate às redes criminosas e a diferenciação entre atividades ilegais e produtores que cumprem a legislação ambiental.

As diferenças são particularmente relevantes para o agronegócio porque envolvem diretamente o Código Florestal, o uso da propriedade rural e as condições ambientais exigidas do produtor.

Petróleo permanece nos planos

Apesar da maior presença da agenda climática, os programas não apontam para uma retirada imediata dos combustíveis fósseis da matriz brasileira.

Petróleo e gás continuam sendo tratados como recursos estratégicos para a segurança energética. Ao mesmo tempo, os candidatos defendem, com diferentes estratégias, a expansão das fontes renováveis.

Energia solar, eólica, hidrogênio de baixa emissão de carbono, biocombustíveis e novas tecnologias de armazenamento aparecem entre as alternativas discutidas. Também há propostas relacionadas à exploração de minerais críticos e terras raras, considerados essenciais para baterias, equipamentos eletrônicos e tecnologias utilizadas na transição energética.

As diferenças surgem principalmente no papel atribuído ao Estado, à Petrobras, ao investimento privado e à exploração de novas reservas.

Clima passa a integrar disputa econômica

A presença dessas propostas nos programas indica uma mudança na maneira como a questão climática aparece no debate presidencial.

A discussão não se limita à preservação ambiental. Passa por competitividade do agronegócio, financiamento, geração de energia, atração de capital, exportações e capacidade do Brasil de participar de novas cadeias produtivas internacionais.

Para produtores rurais, uma das questões concretas será a forma como instrumentos como o PSA, o mercado de carbono, a rastreabilidade e os programas de adaptação climática poderão chegar às propriedades.

Na Amazônia, o debate também envolve a capacidade de transformar a biodiversidade em atividade econômica sem ampliar a pressão sobre a floresta.

Os programas apresentam caminhos diferentes para alcançar esses objetivos. A eleição de 2026 coloca essas propostas em discussão e caberá ao eleitor avaliar as diferenças entre os modelos apresentados pelos candidatos.

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