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Cacau avança sobre áreas já alteradas e reforça produção sustentável na Amazônia

Mapeamento da Embrapa identifica 121 mil hectares cultivados no Pará e em Rondônia e mostra que 96% e 98% das áreas analisadas, respectivamente, já haviam sido desflorestadas antes de 2020

A expansão da cacauicultura na Amazônia está revelando uma dinâmica diferente daquela historicamente associada ao avanço de algumas atividades agropecuárias sobre a floresta. Um novo levantamento da Embrapa mostra que o crescimento do cultivo de cacau no Pará e em Rondônia ocorre principalmente em áreas que já haviam sido alteradas anteriormente, incluindo antigas pastagens e áreas de vegetação secundária.

O estudo mapeou 121 mil hectares cultivados com cacau nos dois estados e utilizou sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e verificações diretamente em campo para identificar onde e de que maneira a atividade vem se expandindo.

Os resultados ganham relevância econômica porque a Região Norte já responde por aproximadamente metade da produção brasileira de cacau. Segundo dados do IBGE apresentados pela Embrapa, são cerca de 148 mil toneladas produzidas na região, diante de uma produção nacional próxima de 297 mil toneladas.

Mais do que medir a área plantada, porém, o levantamento procura responder a uma questão decisiva para o futuro da cadeia: é possível aumentar a produção amazônica aproveitando áreas já abertas, sem transformar novas áreas de floresta?

Os dados indicam que esse caminho já está sendo observado nos dois estados analisados.

Produção avança sem derrubada recente de floresta

Ao cruzar a localização das plantações com dados dos projetos TerraClass e Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os pesquisadores reconstruíram o histórico de uso da terra nas áreas onde atualmente existe cacau.

No Pará, 96% das áreas alteradas posteriormente ocupadas pela cacauicultura já estavam desflorestadas antes de 2020. Em Rondônia, esse percentual chega a 98%.

Isso significa que, no universo analisado pelo estudo, a implantação do cacau está fortemente associada ao reaproveitamento produtivo de áreas anteriormente convertidas, e não à abertura recente de floresta.

A distinção é importante.

A Amazônia possui extensas áreas que já sofreram alterações ao longo das últimas décadas. Recuperar economicamente parte dessas terras por meio de culturas perenes e sistemas produtivos mais diversificados pode permitir aumento de renda sem que o crescimento agrícola dependa da abertura de novas áreas.

É nesse cenário que o cacau ganha importância.

Cacau pode recuperar produtividade de áreas degradadas

Originário da Amazônia, o cacaueiro possui características que permitem seu cultivo tanto em sistemas convencionais quanto associado a outras espécies vegetais.

Em sistemas agroflorestais, por exemplo, a cultura pode dividir a mesma área com árvores e outras espécies agrícolas, criando estruturas produtivas mais diversificadas.

O novo estudo da Embrapa diferencia justamente os cultivos realizados a pleno sol e aqueles implantados em sistemas agroflorestais (SAFs), informação relevante para planejamento territorial e avaliação ambiental da cadeia.

Segundo a pesquisa, a cacauicultura também pode contribuir para devolver produtividade a paisagens anteriormente ocupadas por pastagens degradadas.

Isso cria uma possibilidade econômica particularmente importante para a Amazônia: utilizar áreas que perderam produtividade para estabelecer culturas capazes de permanecer durante anos no mesmo território.

Pará concentra maior área mapeada

O levantamento atualizou os dados do Pará para 2024. O último mapeamento disponível para o estado havia sido realizado com informações de 2022.

Já em Rondônia, a pesquisa estabelece pela primeira vez uma linha de base territorial completa da cacauicultura, permitindo acompanhar a evolução futura da atividade e identificar mudanças na ocupação das áreas produtoras.

O trabalho também mostra como tecnologias utilizadas originalmente para monitoramento ambiental podem se transformar em instrumentos de planejamento agrícola.

Imagens de radar são especialmente importantes na Amazônia porque a elevada presença de nuvens dificulta o uso contínuo de imagens ópticas convencionais.

Combinadas a dados de satélite, inteligência computacional e verificações realizadas em campo, essas ferramentas permitem identificar plantações e acompanhar a transformação da paisagem com maior precisão.

Rastreabilidade entra na conta

Conhecer exatamente onde o cacau é produzido está deixando de ser apenas uma necessidade estatística.

A rastreabilidade ambiental vem ganhando importância no comércio internacional de commodities agrícolas, aumentando a necessidade de comprovar a origem dos produtos e o histórico das áreas onde foram cultivados.

O próprio levantamento foi desenvolvido considerando, entre outros aspectos, a sustentabilidade, a restauração de áreas degradadas e as exigências de rastreabilidade dos mercados consumidores.

Para o produtor amazônico, isso pode representar tanto um desafio quanto uma oportunidade.

Quem conseguir demonstrar que produz em área regular e sem conversão recente de floresta pode estar melhor posicionado diante de compradores que adotam critérios socioambientais em suas cadeias de fornecimento.

Amazônia produz metade do cacau brasileiro

O crescimento da atividade ocorre em uma região que já ocupa posição central na cacauicultura nacional.

Com aproximadamente 148 mil toneladas, a Região Norte responde por 50% das cerca de 297 mil toneladas de cacau produzidas no Brasil, conforme os dados do IBGE utilizados pela Embrapa.

O cenário abre espaço para uma estratégia que vá além do aumento da quantidade produzida.

A agregação de valor por meio da fermentação adequada das amêndoas, produção de cacau fino, fabricação regional de chocolates e derivados e identificação da origem dos produtos pode ampliar a renda gerada pela mesma área cultivada.

Nesse modelo, o ganho econômico não depende exclusivamente de plantar mais hectares, mas de aumentar produtividade, qualidade e valor agregado.

Mapeamento pode orientar expansão da cultura

A principal contribuição do novo levantamento talvez esteja justamente na capacidade de orientar o crescimento futuro.

Saber onde estão as plantações, qual era o uso anterior dessas terras e quais sistemas produtivos estão sendo adotados permite que governos, produtores, cooperativas, pesquisadores e empresas planejem melhor a cadeia.

Também ajuda a identificar áreas onde o cacau pode funcionar como alternativa para recuperação produtiva de terras já abertas.

O estudo não representa toda a cacauicultura da Amazônia brasileira — o mapeamento divulgado abrange especificamente Pará e Rondônia. Essa delimitação é importante para que os resultados não sejam extrapolados automaticamente para estados como Amazonas, Acre ou Amapá.

Ainda assim, os resultados apresentam uma perspectiva relevante para toda a região.

Em vez de colocar produção agropecuária e conservação como objetivos necessariamente incompatíveis, o avanço do cacau sobre áreas previamente alteradas mostra uma possibilidade de desenvolvimento baseada no melhor aproveitamento das terras que a Amazônia já possui abertas.

Para uma região que busca ampliar renda e produção sem repetir modelos de expansão associados ao desmatamento, essa pode ser uma das principais vantagens competitivas da cacauicultura amazônica.

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