Adaptados às condições amazônicas, búfalos ganham espaço na pecuária do estado; atividade enfrenta desafios de logística, alimentação e acesso a tecnologias de melhoramento genético
Rústicos, adaptados a áreas sujeitas a alagamentos e capazes de produzir carne e leite, os búfalos vêm conquistando maior espaço na pecuária do Amazonas. Uma criação historicamente associada à Ilha de Marajó, no Pará, encontra condições favoráveis também em território amazonense e começa a ampliar sua presença entre produtores e consumidores.
A bubalinocultura foi uma das atividades apresentadas durante a 48ª Expoagro, onde animais e derivados como leite, queijos, iogurtes e coalhadas ajudaram a aproximar o público de uma cadeia produtiva ainda menos conhecida que a bovinocultura.
Para Petrúcio Magalhães, que também atua na criação de bubalinos, as próprias características dos animais ajudam a explicar sua adaptação à região.
“A atividade chegou ao Brasil pela Ilha de Marajó e encontrou ali um ambiente muito favorável para a criação desses animais, por serem bastante rústicos. Eles se adaptam muito bem a solos sujeitos ao encharcamento e a áreas de savana. Aqui na Amazônia encontraram realmente um ambiente muito bom para se desenvolver”, explicou.

Norte concentra criação de búfalos
A Região Norte ocupa posição de destaque na bubalinocultura brasileira, com forte presença do rebanho no Pará e, particularmente, na Ilha de Marajó, tradicionalmente associada à atividade.
No Amazonas, segundo Petrúcio, a criação também apresenta crescimento.
O búfalo possui dupla aptidão, podendo ser utilizado para produção de carne e leite. Historicamente, os animais também foram empregados como força de tração em pequenas propriedades, embora essa utilização tenha diminuído com a mecanização.
Na Expoagro, essa cadeia apareceu não somente por meio dos animais expostos, mas também pelos alimentos produzidos a partir do leite de búfala.
“A gente está tendo um número significativo de animais sendo expostos e também produtos como queijo, leite, iogurte e coalhada”, destacou Petrúcio.
Leite tem maior rendimento para fabricação de queijo
Uma das vantagens apontadas pelo produtor está no rendimento do leite destinado à fabricação de derivados.
Segundo Petrúcio, enquanto podem ser necessários aproximadamente 10 litros de leite bovino para produzir um quilo de queijo, com o leite de búfala essa quantidade pode cair para cerca de cinco a seis litros.
“Para fazer um quilo de queijo, por exemplo, com o leite da vaca você precisa de dez litros. Com o de búfala, consegue fazer o mesmo quilo com cinco a seis litros. Isso graças ao teor de gordura desse produto”, explicou.
O maior teor de sólidos torna a matéria-prima especialmente interessante para a indústria de derivados.
A muçarela de búfala é o exemplo mais conhecido, mas Petrúcio ressalta que a matéria-prima também pode ser utilizada em produtos mais próximos dos hábitos alimentares locais, incluindo o tradicional queijo coalho.
Esse potencial permite que a bubalinocultura seja analisada não apenas pela quantidade de animais criados, mas pelo valor que pode ser acrescentado ao leite depois que ele deixa a propriedade.
Logística ainda limita expansão
Se as condições naturais favorecem a adaptação dos búfalos, a geografia amazônica cria obstáculos importantes para transformar essa vantagem em produção de maior escala.
Petrúcio aponta o aumento da oferta de leite como um dos principais desafios atuais.
Parte dos rebanhos encontra-se em propriedades afastadas das sedes municipais e em áreas de várzea. Como o leite é altamente perecível, retirá-lo dessas localidades exige transporte adequado e refrigeração.
“É um produto perecível. A maioria desses animais geralmente está em áreas de várzea, distantes da sede do município. Para ser transportado, precisa ser bem transportado e refrigerado. Isso tem uma dificuldade e um custo para acessar essa matéria-prima”, explica.
A consequência chega à indústria, sem maior regularidade e volume de matéria-prima, torna-se mais difícil ampliar a produção de derivados e alcançar mercados maiores.
Genética pode dobrar produtividade
Outro caminho apontado para expandir a atividade está no melhoramento genético.
Petrúcio destaca que tecnologias já difundidas na bovinocultura ainda têm utilização mais limitada entre os criadores de búfalos. Uma delas é a transferência de embriões.
Segundo ele, instituições ligadas ao setor vêm trabalhando para ampliar o acesso dos produtores a essas técnicas.
A expectativa é aumentar significativamente a produtividade das fêmeas.
“Se hoje uma fêmea produz em média cinco litros de leite, com melhoramento genético a gente pode chegar a dez litros, praticamente dobrando a produção”, afirma.
O avanço genético, entretanto, precisa vir acompanhado de alimentação adequada.
Pastagem, silagem e crédito
Para que um animal geneticamente superior transforme potencial em produção, é necessário melhorar também o manejo dentro das propriedades.
Petrúcio aponta a necessidade de ampliar o acesso ao crédito para investimentos em pastagens, silagem de milho, mecanização e correção do solo, além de cuidados sanitários com os animais.
“O leite entra pela boca do animal. Se ela comer bem, tiver uma boa pastagem, bom manejo e sanidade animal, vai produzir mais e, consequentemente, vamos ter mais produto para colocar no mercado”, resume.
O desafio seguinte é fazer essa produção chegar ao consumidor.
Para Petrúcio, os derivados de búfala precisam conquistar maior presença nas redes de supermercados e se tornar mais conhecidos pela população.
A 48ª Expoagro ajudou justamente nesse processo. Ao colocar animais e produtos diante do público, a feira permitiu que consumidores tivessem maior contato com uma atividade que durante muito tempo permaneceu menos visível que a criação bovina no estado.
Se conseguir avançar simultaneamente em genética, alimentação, logística, crédito e processamento do leite, a bubalinocultura pode ampliar seu espaço no Amazonas e transformar a adaptação natural do búfalo às condições amazônicas em uma vantagem econômica para a pecuária regional.
Texto: Beatriz Costa
Fotos: Divulgação (Internet)

