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Brasil inicia maior exercício de defesa cibernética do Hemisfério Sul nesta segunda

Guardião Cibernético 2026 reunirá mais de 240 organizações para simular ataques contra infraestruturas críticas. Treinamento ocorre após Exército Brasileiro liderar primeiro exercício cibernético conjunto entre exércitos sul-americanos

O Brasil inicia nesta segunda-feira (21) uma das maiores mobilizações do país voltadas à proteção de infraestruturas críticas contra ataques digitais. O Exercício Guardião Cibernético 2026 reunirá mais de 240 organizações das Forças Armadas, governo, iniciativa privada e meio acadêmico para testar a capacidade de reação a incidentes capazes de comprometer serviços essenciais.

Coordenado pelo Comando de Defesa Cibernética do Exército Brasileiro, o treinamento segue até sexta-feira (25), com sede principal em Brasília e atividades descentralizadas em Manaus, Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

Considerado o maior exercício de defesa cibernética do Hemisfério Sul, o Guardião Cibernético colocará diferentes setores diante de cenários simulados de ataques virtuais em larga escala.

A proposta é testar não apenas a resposta técnica aos incidentes, mas a articulação necessária entre militares, órgãos públicos, agências reguladoras, universidades e empresas responsáveis por estruturas essenciais ao funcionamento do país.

Mais de 240 organizações mobilizadas

O Guardião Cibernético chega à edição de 2026 com participação de mais de 240 organizações.

Entre os setores envolvidos estão energia, água, telecomunicações e sistema financeiro, áreas consideradas estratégicas porque uma interrupção provocada por um ataque cibernético pode produzir consequências para milhões de pessoas.

Também participam órgãos governamentais, instituições de ensino, empresas de tecnologia, operadores de infraestruturas críticas e integrantes das Forças Armadas.

O formato procura reproduzir uma característica cada vez mais presente nos incidentes digitais de grande escala. Um ataque contra uma infraestrutura crítica dificilmente permanece restrito ao sistema inicialmente atingido.

Problemas em energia elétrica, por exemplo, podem atingir telecomunicações, serviços financeiros, abastecimento e estruturas governamentais.

É justamente essa interdependência que transforma a defesa cibernética em um problema que ultrapassa a área de tecnologia da informação.

Manaus integra estrutura nacional do exercício

A edição deste ano também terá uma estrutura descentralizada.

Além da coordenação em Brasília, seis capitais receberão hubs regionais do Guardião Cibernético 2026. Manaus está entre elas, ao lado de Belém, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.

A distribuição permite que instituições de diferentes regiões participem dos cenários de crise e das atividades de resposta.

No caso da Região Norte, a presença de Manaus e Belém ganha relevância diante da quantidade de serviços estratégicos que dependem de redes digitais, incluindo energia, telecomunicações, transporte, estruturas governamentais e atividades relacionadas à proteção e ao monitoramento da Amazônia.

O objetivo do exercício não é produzir um ataque real contra esses sistemas, mas criar situações controladas que permitam avaliar procedimentos, comunicação, tomada de decisão e capacidade de recuperação diante de uma ocorrência grave.

Exercício acontece após treinamento inédito com países sul-americanos

O Guardião Cibernético começa poucas semanas depois de o Brasil ter sediado outro treinamento importante na área.

Em agosto, Brasília recebeu o primeiro Exercício de Defesa Cibernética da Rede de Cooperação entre Exércitos Sul-Americanos, a RECESA.

A atividade foi coordenada pelo Estado-Maior do Exército e executada pelo Comando de Defesa Cibernética, reunindo representantes de dez países.

Durante o treinamento, as delegações trabalharam com problemas cibernéticos simulados e compartilharam procedimentos adotados por seus respectivos exércitos.

Entre os cenários estavam ações de espionagem, ataques envolvendo inteligência artificial e tentativas de comprometimento de sistemas, infraestruturas críticas e serviços essenciais.

A intenção foi permitir que os países comparassem seus protocolos e analisassem como responderiam a um mesmo incidente nos níveis político, estratégico e operacional.

Inteligência artificial entra nos cenários de ameaça

Um dos pontos que chama atenção no exercício da RECESA foi a inclusão da inteligência artificial nos cenários simulados.

A tecnologia pode ser empregada tanto na defesa quanto na execução de ataques digitais.

Ferramentas baseadas em inteligência artificial podem ampliar a velocidade de análise de grandes volumes de dados, auxiliar na identificação de comportamentos anormais em redes e automatizar determinadas respostas.

Ao mesmo tempo, essas capacidades podem ser exploradas por agentes maliciosos para aumentar a escala e a sofisticação de determinadas operações.

No exercício sul-americano, a inteligência artificial apareceu justamente dentro de cenários hipotéticos de alta complexidade, ao lado de espionagem e tentativas de comprometer serviços essenciais.

O treinamento não significou que os países estivessem respondendo a ataques reais. As situações foram criadas especificamente para testar procedimentos e promover intercâmbio de conhecimento.

Dez países discutiram resposta conjunta

A RECESA foi criada em 2023 como espaço de cooperação entre exércitos da América do Sul.

O treinamento realizado pelo Brasil marcou a primeira atividade conjunta da rede especificamente dedicada à defesa cibernética.

Ao reunir representantes de dez países, o exercício buscou estabelecer canais mais rápidos de comunicação e troca de informações diante de ameaças digitais que podem ultrapassar fronteiras nacionais.

No ambiente cibernético, a origem de uma ação, os servidores utilizados, as vítimas e os efeitos de um incidente podem estar distribuídos por diferentes países.

Por isso, o intercâmbio de informações e a existência de contatos previamente estabelecidos entre instituições são considerados elementos importantes na resposta a incidentes.

Infraestruturas críticas estão no centro da estratégia

Os dois exercícios têm um ponto em comum. A proteção das infraestruturas críticas ocupa posição central nos cenários de defesa.

São estruturas cuja interrupção pode comprometer serviços indispensáveis à população, à economia ou ao funcionamento do Estado.

Energia, água, telecomunicações, finanças e sistemas governamentais estão entre os setores que demandam atenção especial.

A digitalização dessas atividades aumentou eficiência e capacidade de gerenciamento, mas também ampliou a superfície potencial de ataque.

Um incidente cibernético deixou, portanto, de representar apenas perda de dados ou indisponibilidade de computadores.

Dependendo do alvo, uma ação digital pode afetar serviços prestados diretamente à população.

Defesa cibernética integra modernização do Exército

O treinamento promovido pela RECESA também está relacionado ao Projeto Força 40, que estabelece diretrizes para a transformação e preparação da Força Terrestre brasileira até 2040.

Dentro desse processo, o espaço cibernético é tratado como ambiente estratégico das chamadas operações multidomínio.

O conceito considera que conflitos contemporâneos podem envolver simultaneamente diferentes ambientes operacionais, incluindo terra, mar, ar, espaço e domínio cibernético.

Nesse contexto, sistemas de comando e controle, comunicações e redes digitais tornam-se componentes diretamente relacionados à capacidade operacional das forças militares.

A defesa desses ativos passa, assim, a integrar o planejamento militar ao lado das capacidades tradicionais.

Guardião Cibernético amplia integração com setor civil

Uma das diferenças do Guardião Cibernético em relação ao treinamento da RECESA está na abrangência dos participantes.

Enquanto o exercício sul-americano teve como foco a cooperação entre exércitos, o Guardião amplia a atuação para organizações civis responsáveis por serviços estratégicos.

Essa integração é necessária porque grande parte da infraestrutura digital relevante para o país não está sob controle direto das Forças Armadas.

Bancos, empresas de energia, operadoras de telecomunicações, instituições acadêmicas, agências reguladoras e organizações especializadas em tecnologia precisam participar da construção dos protocolos de resposta.

O exercício permite testar justamente essa coordenação.

Entre segunda e sexta-feira, os participantes serão colocados diante de situações simuladas destinadas a medir a capacidade de identificar ameaças, compartilhar informações, tomar decisões e manter ou recuperar serviços essenciais.

Depois do treinamento internacional realizado com os exércitos sul-americanos, o Guardião Cibernético 2026 amplia a escala da preparação.

Desta vez, o desafio será integrar mais de 240 organizações em torno de um mesmo objetivo: elevar a capacidade brasileira de responder a ataques digitais capazes de atingir estruturas essenciais para o funcionamento do país.

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