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Bioeconomia avança na Amazônia, mas crédito, logística e acesso a mercados ainda limitam crescimento

Mapeamento realizado em territórios do Amazonas, Acre e Rondônia identifica cadeias produtivas baseadas na sociobiodiversidade e aponta gargalos para transformar iniciativas locais em negócios de maior escala

A bioeconomia já movimenta comunidades e empreendimentos em diferentes territórios da Amazônia, apoiada em atividades que vão do manejo sustentável do pirarucu à produção de café, cacau, castanha, farinha, óleos vegetais, cosméticos e artesanato. A expansão dessas cadeias, no entanto, ainda esbarra em problemas históricos da região, como dificuldades de acesso ao crédito, infraestrutura precária, custos logísticos, assistência técnica insuficiente e limitações para alcançar novos mercados.

O cenário é apresentado no relatório “Bioeconomia e Territórios da Amazônia”, levantamento desenvolvido pelo programa EcoAm – Fomentando Ecossistemas de Impacto na Amazônia. O estudo analisou experiências em Tefé, no Amazonas; Rio Branco, no Acre; e Ji-Paraná, em Rondônia, buscando compreender como atividades econômicas associadas à biodiversidade e aos conhecimentos locais estão se desenvolvendo em diferentes realidades amazônicas.

Mais de 100 representantes de comunidades, empresas, cooperativas, universidades e instituições públicas participaram do levantamento.

Criado em 2024, o EcoAm reúne Impact Hub Manaus e BID Lab, laboratório de inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por meio do programa Amazônia Sempre, além do Instituto Meraki, Fundo Vale e Sebrae Amazonas na região de Tefé.

Com mais de 50 páginas, o relatório identifica atividades relacionadas a cacau, castanha-do-Brasil, café amazônico, mel e apicultura, horticultura orgânica, polpas de frutas, manejo do pirarucu, agricultura familiar, turismo de base comunitária, cosméticos naturais, biojoias, óleos vegetais e artesanato tradicional.

Apesar das diferenças entre os três territórios, alguns obstáculos aparecem de forma recorrente. Entre eles estão acesso a financiamento, infraestrutura, logística, assistência técnica, comercialização e maior articulação entre políticas públicas e iniciativas desenvolvidas localmente.

Tefé: pirarucu, farinha e protagonismo comunitário

No Amazonas, o levantamento analisou Tefé, município onde a dinâmica econômica está diretamente relacionada aos rios e ao cotidiano das populações ribeirinhas.

Entre as atividades destacadas estão duas cadeias tradicionais da região: o manejo sustentável do pirarucu e a produção da farinha de Uarini. Além da importância econômica, são atividades associadas aos conhecimentos acumulados pelas comunidades e à relação com o território.

O estudo também identifica participação crescente de mulheres em associações e empreendimentos e de jovens que combinam conhecimentos tradicionais com ferramentas e tecnologias mais recentes.

Nesse território, os principais desafios estão relacionados ao fortalecimento da gestão das organizações comunitárias, à melhoria dos processos produtivos e à ampliação do acesso aos mercados.

Rio Branco concentra startups de bioeconomia

Em Rio Branco, o levantamento encontrou um cenário diferente. A capital acreana reúne universidades, centros de pesquisa, cooperativas, empresas e empreendedores que ajudam a formar um ambiente voltado à inovação.

Segundo dados do Sebrae citados no estudo, o território reúne cerca de 81 startups relacionadas à bioeconomia, com atuação em segmentos como alimentos, cosméticos, biotecnologia e nanotecnologia.

Castanha, cacau, óleos vegetais e bioativos amazônicos também aparecem entre as cadeias de destaque.

O desafio identificado é fazer com que pesquisa científica, comunidades, investimentos e mercado estejam mais conectados, permitindo que iniciativas em estágio inicial consigam crescer e gerar produtos com maior valor agregado.

O levantamento também chama atenção para a necessidade de melhorar a distribuição do valor gerado pelas cadeias produtivas e ampliar a participação de quem vive e produz nos territórios na construção das políticas destinadas à bioeconomia.

Ji-Paraná busca alternativas econômicas sustentáveis

Em Ji-Paraná, Rondônia, o relatório identificou pelo menos 25 empreendimentos ligados à bioeconomia.

Agricultura familiar, café amazônico, cacau, castanha, mel e pescado aparecem entre as atividades desenvolvidas na região. O território, entretanto, carrega impactos históricos associados ao avanço urbano e ao desmatamento.

Nesse contexto, o fortalecimento dessas cadeias é apontado como uma possibilidade de diversificação econômica associada à conservação e ao aproveitamento sustentável dos recursos naturais.

Entre os desafios estão a criação de novos negócios, a incorporação de tecnologias e a ampliação dos canais de comercialização.

Outra preocupação identificada pelo levantamento é a permanência dos jovens nas comunidades. A falta de oportunidades profissionais e econômicas pode estimular a migração para centros urbanos e comprometer tanto a continuidade das atividades produtivas quanto a transmissão de conhecimentos e práticas culturais.

Desenvolvimento precisa partir dos territórios

Para o coordenador do programa EcoAm, Washington Silva, compreender as particularidades de cada território é uma etapa necessária antes da definição de investimentos ou políticas voltadas à bioeconomia.

Segundo ele, o objetivo do mapeamento é identificar os atores que já trabalham nessas regiões, as cadeias que movimentam a economia e os obstáculos que impedem o crescimento das iniciativas.

A cofundadora do Impact Hub Manaus, Juliana Teles, destaca que muitas atividades hoje classificadas como bioeconomia já fazem parte há décadas do cotidiano das populações amazônicas.

Elas estão presentes nas feiras, rios, quintais, cooperativas, associações e sistemas produtivos que utilizam os recursos da floresta e os conhecimentos tradicionais para gerar alimento e renda.

O diagnóstico reforça, assim, que o desafio da bioeconomia amazônica não está apenas em criar novas atividades econômicas. Parte importante desse processo passa por fortalecer cadeias que já existem, melhorar infraestrutura e logística, ampliar financiamento, agregar valor à produção e aproximar conhecimento científico, políticas públicas, investimentos e saberes tradicionais.

O relatório reúne entrevistas, análises territoriais e mapeamentos produzidos durante a fase piloto do EcoAm. A metodologia da pesquisa foi desenvolvida e executada pelo Instituto Ñambi, responsável pelo trabalho de campo, entrevistas, análise dos dados e elaboração dos Mapas Estruturantes Integrativos.

 

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