Reativada em março, cooperativa de Urucará reúne diferentes produtos da agricultura familiar e busca fortalecer a comercialização da produção regional diante de desafios como distância, logística e acesso a recursos
A diversidade é uma das principais características da agricultura familiar no Amazonas. Em uma mesma propriedade, o produtor pode cultivar diferentes espécies, trabalhar com alimentos beneficiados e desenvolver atividades que se complementam ao longo do ano. Transformar essa variedade em renda, porém, depende também de organização, logística e acesso ao mercado.
Foi com a proposta de reunir diferentes produções em uma mesma estrutura que a Agromel, cooperativa de Urucará, iniciou uma nova etapa de atuação em 2026. A organização surgiu a partir da reativação de uma cooperativa que, segundo sua diretora-presidente, Ana Almeida, estava sem atividade havia mais de dez anos.
“Nós somos uma cooperativa iniciante. Começamos no dia 30 de março, a partir de uma cooperativa que estava adormecida havia mais de dez anos. Reativamos, mudamos o nome e começamos essa nova fase como Agromel”, explicou Ana, que também é produtora rural.
A mudança não ficou apenas no nome. A proposta passou a contemplar uma variedade maior de produtos da agricultura familiar, buscando representar melhor a realidade dos pequenos produtores da região.

Uma cooperativa para diferentes produções
Segundo Ana Almeida, anteriormente a cooperativa estava relacionada principalmente à produção de pescado. Na nova configuração, passaram a ser incorporados mel e outros produtos regionais cultivados ou produzidos pelos agricultores.
A ideia surgiu da própria realidade das propriedades familiares.
“O pequeno agricultor não cultiva só um tipo de produto. Ele cultiva um pouquinho de tudo. Tem farinha e vários outros produtos. Então, a gente agregou tudo isso em uma única cooperativa”, afirmou.
Essa diversidade permite que a organização não fique vinculada exclusivamente a uma cadeia produtiva.
Ao reunir diferentes produtos, a cooperativa busca criar uma estrutura comum de divulgação e comercialização, fortalecendo produtores que, individualmente, podem encontrar maior dificuldade para alcançar novos mercados.
Café e mel ganham destaque
Durante a 48ª Expoagro, realizada em Manaus, a Agromel optou por apresentar dois produtos: café e mel de abelhas.
A escolha não significa que sejam os únicos itens trabalhados pelos cooperados. Segundo Ana, a distância entre Urucará e Manaus, associada aos custos de deslocamento, exigiu selecionar o que seria levado para exposição.
“Hoje nós trouxemos apenas o café e o mel, mas temos muito mais produtos. Como o espaço e o tempo são pequenos e a distância é grande, o custo fica muito alto. Então, optamos por dois produtos que são destaques na nossa cooperativa: o café e o mel”, explicou.
Entre os produtos apresentados estava o mel produzido por abelhas meliponíneas, além do café regional.
O café levado ao evento representava uma produção recente e recebeu embalagem preparada especialmente para a ocasião, segundo a dirigente.
“O café é uma produção nova, que foi embalada especialmente para esse evento”, contou.
A presença em uma feira de grande circulação funciona, nesse contexto, como oportunidade para apresentar ao consumidor produtos que percorrem uma longa distância até chegar à capital.
Distância pesa no custo da produção
Para Ana Almeida, um dos maiores obstáculos enfrentados atualmente está justamente na logística.
Urucará está no interior do Amazonas, e transportar os produtos para mercados consumidores maiores pode elevar significativamente os custos da atividade.
“A distância é o maior desafio. O custo fica muito alto”, resumiu.
O problema afeta especialmente pequenos produtores, para os quais transporte, armazenamento e deslocamento podem representar uma parcela significativa do valor final da mercadoria.
A própria decisão de levar somente café e mel para a Expoagro demonstra como a logística interfere diretamente nas possibilidades de comercialização. Embora a cooperativa reúna uma produção mais diversificada, nem sempre é economicamente viável transportar todos os itens disponíveis.
Nesse cenário, a organização cooperativista surge também como uma alternativa para reunir produtores e buscar soluções coletivas para dificuldades que seriam ainda maiores se enfrentadas individualmente.
Projetos esbarram na falta de recursos
A Agromel ainda está no início dessa nova etapa. Apesar do pouco tempo desde a reativação, Ana afirma que já existem propostas para ampliar o trabalho desenvolvido com os produtores de Urucará.
“Nós temos uma proposta grande com outros produtores em Urucará, projetos grandes e inúmeras ideias. Porém, o recurso falta, mas estamos caminhando”, afirmou.
A declaração evidencia outro desafio para organizações formadas por pequenos produtores: transformar projetos em estruturas capazes de ampliar produção, beneficiamento e comercialização depende de investimento.
Ainda assim, a reativação da cooperativa representa um primeiro movimento para organizar essa diversidade produtiva.
Ao reunir café, mel e outros produtos da agricultura familiar sob uma mesma organização, a Agromel busca fortalecer a produção local e criar novos caminhos para que aquilo que é produzido em Urucará consiga alcançar outros consumidores.
Para Ana Almeida, que conhece essa realidade também como produtora rural, a lógica é justamente reconhecer que o agricultor familiar raramente depende de uma única cultura. É da diversidade da propriedade que nasce a proposta da cooperativa, reunir diferentes produções, organizar os agricultores e transformar o trabalho desenvolvido no interior em novas possibilidades de mercado e geração de renda.
Texto e foto destaque: Beatriz Costa
Fotos: Divulgação (Arquivo Pessoal)